Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça n.º 11/2025 — «A deliberação dos sócios a que se refere o art.º 242.º n.º 2 do Código das Sociedades Comerciais deve ocorrer no prazo…

Tipo Acordao-Supremo-Tribunal-Justica
Publicação 2025-10-31
Estado Em vigor
Texto Tal como publicado
Ministério Supremo Tribunal de Justiça
Fonte DRE
artigos Não indexado

Este é o ato tal como foi publicado. As alterações posteriores não estão incorporadas no texto: cada uma é um ato autónomo neste repositório e uma entrada no historial desta lei.

«A deliberação dos sócios a que se refere o art.º 242.º n.º 2 do Código das Sociedades Comerciais deve ocorrer no prazo de 90 dias a contar da data em que os respectivos gerentes tiveram conhecimento dos factos que fundamentam a exclusão de sócio. Por sua vez, a acção de exclusão deve ser proposta, no prazo de 90 dias, a contar da data dessa deliberação. Caduca o direito da sociedade, caso não seja cumprido algum daqueles prazos.»

Histórico de alterações JSON API

Prazos estes que, não sendo exercidos tempestivamente, farão o direito de exclusão caducar, ou seja, o direito de exclusão de sócio, ultrapassados tais prazos, não se extingue por prescrição (no que, com todo o respeito, discordamos da generalidade da jurisprudência das Relações e deste Supremo) mas sim por caducidade.”

3 - A solução do acórdão fundamento

Diferentemente, defendeu o acórdão fundamento9 o seguinte:

“Só a sociedade, após deliberação dos sócios, em Assembleia Geral, tem o direito de, por ser judicial, propor a exclusão de um sócio.

Por esse motivo, o conhecimento anterior pelos sócios ou sócio de factos, que consubstanciem comportamento desleal ou gravemente perturbador do funcionamento da sociedade praticados por um outro sócio, não lhes dá legitimidade para isolada ou conjuntamente intentarem a referida acção.

O direito à exclusão de um sócio pertence, pois, à sociedade e não aos sócios.

O mesmo não se diga no caso da destituição do gerente, com justa causa, uma vez que, neste contexto, qualquer sócio a pode requerer intentando acção contra a sociedade, nos termos conjugados dos artigos. 254.º, n.os 1 e 5 e 257.º, n.º 1, do C.S. Comerciais.

É nesta perspectiva que se tem de entender o disposto no n.º 6 do artigo 254.º deste Código, que diz: “Os direitos da sociedade mencionados no número anterior prescrevem no prazo de 90 dias a contar do momento em que todos os sócios tenham conhecimento da actividade exercida pelo gerente, ou em qualquer caso, no prazo de cinco anos contados no início dessa actividade.”

Efectivamente, podendo o sócio ou sócios, por si intentarem acção de distribuição10 de gerente sempre se teria de encontrar um prazo de tempo razoável para o exercício do direito respectivo, a fim de tornar clara, transparente e eficaz a gerência da sociedade.

Será que este prazo de 90 dias fixado no n.º 6 do artº. 254.º da C. S. Comerciais, para o exercício do direito da destituição do gerente, pode ser aplicado para o exercício do direito de exclusão de sócio?

É nosso entendimento que não.

Desde logo, porque os sócios, isolada ou conjuntamente, não têm legitimidade para a propositura desta acção, embora possam ter conhecimento de factos que possibilitassem tal propositura antes da deliberação social.

O direito de exclusão judicial do sócio pertence à sociedade e não aos sócios.

Depois, porque o sócio, sobre o qual pende uma deliberação de exclusão da sociedade por via judicial, pode exonerar-se da mesma, nos termos do disposto na alínea b), n.º 1, artº. 240.º do C. S. Comerciais, ou seja, quando a sociedade não promover a sua exclusão judicial.

Quer isto dizer, que a sociedade não está obrigada a obedecer a qualquer prazo especial para o exercício do seu direito de exclusão de sócio.

E, assim, conclui que a sociedade “terá de ter em conta tão só o prazo ordinário de prescrição de 20 anos, previsto no art.º309.º do CC [...]”.

4 - Do entendimento jurisprudencial

Vejamos, de seguida, a jurisprudência que se tem vindo a pronunciar sobre o tema, sem preocupação de elenco exaustivo, mas tão só exemplificativo de alguma diversidade no tratamento do tema.

1 - No sentido propugnado pelo acórdão recorrido:

a)

Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça

O Acórdão do STJ de 11-11-199711 decidiu que “I-Em sociedade por quotas, o direito de exclusão judicial de sócio por comportamento desleal, previsto no artigo 242 números 1 e 2 do CSC, em que se inclui o de indemnização pelos respectivos danos, está sujeito ao prazo de prescrição de 90 dias, a contar do conhecimento, pelos sócios, do facto que serve de fundamento à exclusão, por aplicação analógica do disposto nos artigos 186 n.º 2 e 254 n.º 6 do citado Código (seu artigo 2.º).

II - Invocada a prescrição por aquele a quem aproveita, o seu conhecimento judicial pode basear-se em norma jurídica ou prazo prescricional diversos dos alegados (artigos 303.º do CC e 664.º do CPC).”

O prazo considerado no acórdão, aplicado por analogia, corresponde ao entendimento defendido no acórdão recorrido, contudo o mesmo é qualificado como prazo de prescrição ao invés de caducidade, como no acórdão recorrido.

*

No acórdão de 05-05-201512, além de outras questões, diversas daquelas que para aqui importam directamente, foi tratada a questão da “prescrição do direito de exclusão do sócio”, concluindo-se que, no caso, não se verificava a prescrição. Contudo, ali se pode ler que:

“A lei exige o prazo de 90 dias para o caso de os factos-situação que possam engolfar realidades factuais que possam conduzir à exclusão de algum dos sócios serem do conhecimento dos gerentes - cf. n.º 2 do artigo 186.º do Código das Sociedades Comerciais.”

*

No acórdão datado de 31-05-202313, também a propósito do prazo a aplicar ao direito de exclusão do sócio, escreve-se o seguinte “quanto ao prazo de que dispõe a sociedade para exercer o direito de excluir o sócio (deliberando a exclusão ou adotando a deliberação que dá azo à propositura da ação judicial), a lei é omissa, porém, deve entender-se, “por aplicação analógica do art. 241.º e sua remissão para o art. 234.º/2 do CSC, que a sociedade terá 90 dias, a contar do conhecimento dos factos por algum dos gerentes, para adotar a deliberação que desencadeia o processo de exclusão”; sendo que a inobservância de tal prazo faz caducar o direito da sociedade a excluir o sócio.”

b)

Jurisprudência dos Tribunais da Relação

No acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 10-02-202214 decidiu-se igualmente que “o prazo de prescrição para exercício judicial pela sociedade do direito de exclusão de sócio, é de 90 dias a contar do conhecimento do facto ou comportamento fundamentador, por aplicação analógica do disposto nos artigos. 241.º e 234.º”, remetendo para o decidido pelo Acórdão do Tribunal da Relação de Évora de 18-10-2012.

Também no acórdão do mesmo Tribunal de 14-12-202215 se seguiu o mesmo entendimento de que “o prazo de prescrição para exercício judicial pela sociedade do direito de exclusão de sócio, é de 90 dias a contar do conhecimento do facto ou comportamento fundamentador, por aplicação analógica do disposto nos arts. 241.º e 234.º”.

O acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 12-07-202216 decide também que “Para o exercício do direito de exclusão judicial de sócio a que se reporta o artigo 242.º do CSC, por meio de deliberação societária, determinante da propositura da ação judicial correspondente, é de aplicar, por analogia, o prazo de 90 dias a que se referem os arts. 241.º, n.º 2, e 234.º, n.º 2, do CSC.” E ainda considerando que as sociedades “enquanto pessoas coletivas, só podem agir (e conhecer e querer) por meio dos titulares dos seus órgãos, quando a lei determina o prazo para o exercício de qualquer direito por aquelas, faz reportar o início da sua contagem ao tempo do conhecimento dos factos em causa pelos respetivos sócios ou gerentes.”

No Tribunal da Relação de Guimarães, no acórdão de 25-05-201617, seguiu-se igual entendimento, segundo o qual “nas sociedades por quotas o prazo para o exercício judicial pela sociedade do direito de exclusão de sócio é de 90 dias a contar do conhecimento dos factos ou do termo da cessação da conduta infractora, por aplicação analógica do disposto das normas dos artigos 234.º, n.º 2, e 241.º, n.º 2, do Código das Sociedades Comerciais.”

No Tribunal da Relação de Lisboa, o recente acórdão de 19-12-202418 considerou “[...] ser de 90 dias o prazo para o exercício do direito de exclusão de sócio. Com efeito, não prevendo o artigo 242.º do CSC qualquer prazo para o exercício de tal direito, tem sido entendido pela jurisprudência fixá-lo, precisamente, em 90 dias, por aplicação analógica quer do artigo 254.º, n.º 6 do CSC (prazo para a destituição de gerente com justa causa), quer dos artigos 241.º e 234.º do CSC (regime da exclusão baseada em fundamento legal ou contratualmente delimitado, que remete por sua vez para o prazo de amortização). A doutrina, tal como a jurisprudência mais recente, tem preferido a segunda opção, ou seja, que, por analogia com o disposto nos artigos 234.º, n.º 2 e 241.º, n.º 2 do CSC, a acção judicial deve ser proposta (sob pena de caducidade), no prazo de 90 dias contados do conhecimento do facto fundamentador da exclusão”.

Também o Acórdão do Tribunal da Relação de Évora, datado de 18-10-201219, acerta pelo mesmo diapasão, ao decidir que “nas sociedades por quotas o prazo para o exercício judicial pela sociedade do direito de exclusão de sócio é de 90 dias, a contar do conhecimento dos factos pelos sócios ou do termo da cessação da conduta infractora.”

4.2 - No sentido propugnado pelo acórdão fundamento

Para além do próprio acórdão fundamento, nenhum outro acórdão do STJ ou das Relações foi localizado a defender idêntico entendimento (no sentido de ser aplicável o prazo ordinário de prescrição de 20 anos para a propositura de ação judicial com vista à exclusão do sócio).

5 - A decisão do caso concreto

a)

Prazo de que dispõe a sociedade para exercer o direito de exclusão judicial de sócio

Perante a supra exposta divergência de entendimento, sendo certo que há muito se vem consolidando a Jurisprudência deste Supremo no sentido propugnado pelo acórdão recorrido, vejamos quais os argumentos jurídicos a favor de cada uma das teses a fim de nos habilitarmos a tomar posição por aquela que se nos afigura mais acertada.

Como já ficou delineado, situamo-nos no âmbito do direito de exclusão judicial de sócio, nas sociedades por quotas que, nos termos do artigo 242.º, n.os1 e 2, do CSC20, depende de uma prévia deliberação dos sócios que tem de ser seguida pela propositura de ação judicial peticionando, a título principal, a exclusão do sócio.

Temos, assim, dois momentos distintos a considerar: a prévia deliberação dos sócios e, posteriormente, a acção judicial.

Todavia, aquele normativo não prevê qualquer prazo para o exercício do direito de acção de exclusão de sócio importando, assim, definir qual o prazo em que deve ser produzida a deliberação social tendente à propositura da ação de exclusão, por um lado, bem como qual o prazo para a apresentação da acção respetiva, por outro.

Vejamos, em primeiro lugar a questão de saber como definir o prazo para a realização da deliberação social:

Os fundamentos para a exclusão de sócio consistem normalmente num comportamento ou numa situação pessoal do sócio que impossibilite ou dificulte a execução do fim social estipulado, tornando-se assim insuportável para os restantes sócios a permanência daquele na sociedade.

Estamos, por conseguinte, perante um direito potestativo extintivo do qual é titular a sociedade, previsto para disciplinar um conflito de interesses entre a sociedade e o sócio, cujo reconhecimento exprime a prevalência do interesse da sociedade na saída do sócio da sociedade sobre o interesse do sócio de nela permanecer ou de não sair dela sem ou contra a sua vontade.

Ora, dispõe o art.º242.º, sob a epígrafe “exclusão judicial de sócio”:

“1 - Pode ser excluído por decisão judicial o sócio que, com o seu comportamento desleal ou gravemente perturbador do funcionamento da sociedade, lhe tenha causado ou possa vir a causar-lhe prejuízos relevantes.

2 - A proposição da ação de exclusão há de ser deliberada pelos sócios, que poderão nomear representantes para o efeito.

3 - Dentro dos 30 dias posteriores ao trânsito em julgado da sentença de exclusão deve a sociedade amortizar a quota do sócio, adquiri-la ou fazê-la adquirir, sob pena de a exclusão ficar sem efeito.”

Resulta, portanto, da citada disposição legal, que a exclusão de sócio depende da verificação cumulativa de dois requisitos:

(i) Um comportamento do sócio, desleal ou perturbador do funcionamento da sociedade,

(ii) Que esse comportamento do sócio tenha causado ou possa vir a causar à sociedade prejuízos relevantes.

A relevância do comportamento desleal para efeitos de exclusão do sócio resulta, da submissão dos sócios a um dever de lealdade em relação à sociedade. Esse dever dos sócios - que é um dever acessório de conduta em matéria contratual e um dever geral de respeito e de agir de boa fé, é caracterizado como um dever de conteúdo negativo que corresponderá, no essencial, ao dever de não actuar de modo incompatível com o interesse social. 21

Depreende-se, pois, que a exclusão de sócio está reservada para situações graves que prejudiquem (atual ou potencialmente) a sociedade, de forma relevante, pondo em causa o seu funcionamento e, em última instância, a sua sobrevivência, podendo dizer-se - como diz Coutinho de Abreu22, que “…subjaz à cláusula geral do n.º 1 do artigo 242.º a ideia de exclusão permitida somente como “fundamento importante”, como última ratio para que os restantes sócios prossigam normalmente a actividade social.”

Nesta mesma linha de pensamento se pronunciou o Supremo Tribunal de Justiça23, ao referir que “O instituto da exclusão de sócio encontra fundamento na protecção do fim do contrato de sociedade, traduzido no interesse social, “enquanto elemento comum aos interesses dos sócios contratantes e meio contratual de satisfação dos seus interesses distintos”. Assim, a exclusão justifica-se quando o interesse social é posto em causa por um sócio que, por via da violação das suas obrigações, conduza a resultados ou efeitos que prejudiquem o fim social.

Daí que a sociedade só possa resolver o contrato em relação a determinado sócio, mediante a exclusão, quando este ponha em causa, não em função dos seus incumprimentos, mas dos seus efeitos, o interesse social (vide Luís Menezes Leitão, “Pressupostos da Exclusão de Sócio nas Sociedades Comerciais”, A.A.F.D.L., 1988, p. 41 e seguintes).

O sócio está, pois, obrigado a não violar deveres de conduta que possam causar prejuízos à sociedade.

Entre esses deveres acessórios apontam-se os de esclarecimento, de colaboração e de lealdade, deveres que fazem parte do conteúdo das obrigações, como exigências gerais do sistema jurídico - cf. Menezes Cordeiro, “Direito das Obrigações”, I, 1994, 149.

A violação desses deveres acessórios de conduta é, nas sociedades por quotas, o fundamento de exclusão acolhido pelo art.º 242 n. 1 citado. Por um lado, tem de demonstrar-se factos atinentes ao comportamento do sócio violadores do dever de lealdade ou gravemente perturbadores do funcionamento da sociedade e factos respeitantes ao prejuízo causado, que tem de ser significativo.”

Ora, como o artigo 242.º não indica qualquer prazo no qual a sociedade deva proceder a tal deliberação nem à propositura da acção de exclusão de sócio, importa averiguar se tal ocorre porque o legislador não quis sujeitar a sociedade a qualquer prazo especial para o exercício desse direito,

Tal entendimento foi seguido no acórdão fundamento em que se concluiu que “a sociedade não está obrigada a obedecer a qualquer prazo especial para o exercício do seu direito de exclusão de sócio. Terá de ter em conta tão só o prazo ordinário de prescrição de 20 anos, previsto no artigo 309.º do Código Civil.”

Segundo este ponto de vista, o facto de a norma não indicar um prazo para o exercício do direito, quer dizer que o titular está sujeito apenas ao prazo geral ordinário.

Não acompanhamos este entendimento.

E a razão de nos afastarmos desse entendimento consiste no facto de não fazer sentido que perante uma violação tão grave das obrigações do sócio, perante a sociedade, de tal modo que possa conduzir a resultados ou efeitos que prejudiquem o fim social, a ordem jurídica permita a permanência do mesmo na sociedade, em contradição com a defesa dos interesses da mesma, cuja prevalência decorre da figura legal da exclusão de sócio. Tal entendimento não é consentâneo com as exigências de celeridade do tráfego jurídico típicas do Direito Comercial e Societário. 24

Se no direito de exclusão judicial de sócio, previsto no artigo 242.º do CSC, está em causa, como tem de estar, um comportamento desleal ou gravemente perturbador do funcionamento da sociedade, que tenha causado ou possa vir a causar à sociedade prejuízos relevantes, e visando esta norma a proteção da integridade da sociedade, não é concebível, que a mesma sociedade, a partir do momento em que conhece os factos, continue passivamente a permitir a presença do sócio na vida societária, e possa vir a tolerar uma situação dessas, durante anos. E, por isso, admitir o prazo ordinário de prescrição de 20 anos para intentar uma acção de exclusão de sócio é de todo incompatível com as exigências de celeridade inerentes à vida societária. 25

Excluída a hipótese de o legislador ter pretendido que ao caso fosse aplicado o prazo geral ordinário previsto no artigo 309.º do Código Civil e perante a omissão de fixação de prazo, no normativo legal constante do artigo 242.º, importa averiguar se estaremos perante uma lacuna da lei a integrar nos termos do disposto no artigo 2.º do Código das Sociedades Comerciais, ou seja, recorrendo a norma aplicável aos casos análogos, ou se, existirá uma norma geral prevista no Código das Sociedades Comerciais em cuja previsão se deva subsumir o presente caso.

Na verdade, o Supremo Tribunal de Justiça26, embora no âmbito de uma acção com vista à destituição de gerentes, com fundamento em justa causa, nos termos do art.º 257.º n.º 4 do CSC., entendeu ser aplicável o prazo de prescrição de cinco anos previsto no artigo 174.º do CSC, como “prazo regra”. 27 E não aplicou o disposto no artigo 254.º n.º 6 - prazo de 90 dias - por considerar que tal norma sendo excepcional em relação à norma constante do artigo 174.º, não comporta aplicação analógica, conforme artigo 11.º do Código Civil.

Importa, porém, acentuar que o acórdão mencionado reconheceu que o exercício do direito da sociedade tendo em vista a destituição de gerente, com base em “justa causa” não estava abrangido pela alínea b) do artigo 174.º Porém, “atenta a teleologia imanente da norma em sede de prescrição de direitos” entendeu que “se deve empreender uma extensão teleológica do artigo 174.º 1 b) do CSC ao (não previsto na letra da norma)exercício judicial dos direitos da sociedade ou de sócios tendo em vista a destituição de administradores e gerentes[...]”

Importa, assim, questionar, perante o disposto no artigo 174.º do CSC, se o caso em análise deverá integrar-se na respectiva previsão. Sendo a resposta positiva, não estaremos perante uma lacuna da lei.

Vejamos o teor do artigo 174.º do CSC, sob a epígrafe “prescrição”:

“1 - Os direitos da sociedade contra os fundadores, os sócios, os gerentes, os administradores, os membros do conselho fiscal e do conselho geral e de supervisão, os revisores oficiais de contas e os liquidatários, bem como os direitos destes contra a sociedade, prescrevem no prazo de cinco anos, contados a partir da verificação dos seguintes factos:

a)

O início da mora, quanto à obrigação de entrada de capital ou de prestações suplementares;

b)

O termo da conduta dolosa ou culposa do fundador, do gerente, administrador, membro do conselho fiscal ou do conselho geral e de supervisão, revisor ou liquidatário ou a sua revelação, se aquela houver sido ocultada, e a produção do dano, sem necessidade de que este se tenha integralmente verificado, relativamente à obrigação de indemnizar a sociedade;

c)

A data em que a transmissão de quotas ou acções se torne eficaz para com a sociedade quanto à responsabilidade dos transmitentes;

d)

O vencimento de qualquer outra obrigação;

e)

A prática do acto em relação aos actos praticados em nome de sociedade irregular por falta de forma ou de registo.

2 - Prescrevem no prazo de cinco anos, a partir do momento referido na alínea b) do número anterior, os direitos dos sócios e de terceiros, por responsabilidade para com eles de fundadores, gerentes, administradores, membros do conselho fiscal ou do conselho geral e de supervisão, liquidatários, revisores oficiais de contas, bem como de sócios, nos casos previstos nos artigos 82.º e 83.º

3 - Prescrevem no prazo de cinco anos, a contar do registo da extinção da sociedade, os direitos de crédito de terceiros contra a sociedade, exercíveis contra os antigos sócios e os exigíveis por estes contra terceiros, nos termos dos artigos 163.º e 164.º, se, por força de outros preceitos, não prescreverem antes do fim daquele prazo.

4 - Prescrevem no prazo de cinco anos, a contar da data do registo definitivo da fusão, os direitos de indemnização referidos no artigo 114.º

5 - Se o facto ilícito de que resulta a obrigação constituir crime para o qual a lei estabeleça prescrição sujeita a prazo mais longo, será este o prazo aplicável.”

Analisado o âmbito do artigo 174.º do CSC, especialmente o n.º 1 alínea b) por ser o segmento da norma que por ora releva, verificamos que para ser aplicado à acção prevista no artigo 257.º n.º 4, nos termos do acórdão citado, foi necessário recorrer a uma “extensão teleológica”, pelo que resulta por demais evidente que a deliberação dos sócios prevista no artigo 242.º n.º 2, como actividade que a sociedade tem obrigatoriamente de desenvolver, previamente à propositura da acção destinada à exclusão judicial de sócio, não está abrangida nem pela letra nem pelo espírito da norma.

A deliberação de sócios a que se refere o artigo 242.º n.º 2 do CSC não quadra com o regime de prescrição previsto no artigo 174.º, pois em causa neste artigo estão direitos de crédito e, correspectivamente “a obrigação de indemnizar a sociedade”.

Realça-se, desde já, uma dificuldade, de ordem literal, em aplicar o artigo 174.º n.º 1 b) do CSC ao caso em análise.

Vejamos:

Como bem observa Evaristo Mendes28, “o n.º 1 do artigo 174 do CSC contém duas normas: primeira: no seu corpo, prevê-se um prazo prescricional de 5 anos, designadamente, quanto ao exercício dos direitos da sociedade contra os sócios, enquanto tais, isto é, respeitantes à respectiva relação de socialidade. Segunda sobre o mesmo assunto, em três das suas alíneas, regula-se o início da contagem deste prazo.” 29

E assim o corpo do artigo começa por referir que “os direitos da sociedade contra os fundadores, os sócios, os gerentes, os administradores, os membros do conselho fiscal e do conselho geral e de supervisão, os revisores oficiais de contas e os liquidatários [...], prescrevem no prazo de cinco anos [...]”

Porém, quando na alínea b) se regula o início da contagem do prazo, fixando-a “no termo da conduta dolosa ou culposa do fundador, do gerente, administrador, membro do conselho fiscal ou do conselho geral e de supervisão, revisor ou liquidatário[...]”, o preceito, estranhamente, não se refere “aos sócios”. Porquê? Trata-se de esquecimento do legislador, ou intencional?

Na verdade, o preceito em análise “não se afigura um primor de clareza e rigor jurídico” 30, contudo, em face desta omissão de referência aos “sócios” na alínea b) do artigo 174.º, permite pelo menos suscitar forte dúvida sobre a aplicabilidade desta norma ao caso em análise.

Por sua vez, na alínea d) do mencionado artigo 174.º, regula-se o início da contagem do prazo de cinco anos, na data do “vencimento de qualquer outra obrigação”.

Será que na previsão da alínea d) “se enquadra o dever geral de lealdade dos sócios (e de não perturbar o funcionamento da sociedade), presente no artigo 241.º n.º 1”? 31

Afigura-se que não. Nem a letra nem o espírito da norma parece consentir tal conclusão. Será o dever geral de lealdade dos sócios uma obrigação com uma data de vencimento? Crê-se não suscitar especiais dúvidas que o momento de vencimento de uma obrigação está relacionada com obrigações pecuniárias ou mesmo obrigações de facere ou non facere, mas onde não se pode incluir o dever geral de lealdade dos sócios, visto que não é uma obrigação sujeita a prazo de vencimento, sem que, mesmo assim, possamos dizer que nos encontramos no domínio das chamadas obrigações puras. 32

Por isso, não podemos acompanhar o entendimento de que exista no Código das Sociedades Comerciais uma regra especial de prescrição aplicável ao exercício do direito de exclusão judicial previsto no artigo 242.º do CSC. 33

Com efeito, não se afigura decisivo o argumento de que, não se contemplando qualquer prazo adicional de caducidade mais curto para os casos legais de exclusão, efectivável mediante deliberação social, não ser compreensível e sistematicamente coerente que semelhante exigência seja feita para a exclusão prevista no artigo 242.º, efectivável por via judicial.

Desde logo, a coerência do sistema fica salvaguardada se, para os casos previstos no artigo 241.º, for aplicável o mesmo prazo de 90 dias, como de resto tem sido igualmente defendido pela jurisprudência34. Por outro lado, sempre se poderiam encontrar razões que justificassem uma eventual diferença de regime, indagação que não é por ora oportuno realizar.

Em suma, os argumentos apresentados a favor da aplicabilidade, à exclusão judicial de sócio do prazo de prescrição previsto no artigo 174.º do CSC, não se afiguram decisivos.

Assim, afastada a aplicabilidade daquela norma, forçoso é verificar que estamos perante uma lacuna da lei, pois que o artigo 242.º não menciona qualquer prazo para a realização da necessária deliberação de sócios, pressuposto indispensável para a posterior propositura da acção de exclusão, tal como, de resto, concluiu o acórdão recorrido. 35

Estamos perante uma lacuna da lei quando o caso deva ser regulado juridicamente, mas para o qual a lei não dê resposta imediata36. Na verdade, “A lei - atenta a teleologia e coerência do complexo normativo - não pode deixar de conter um prazo para uma sociedade por quotas exercer o direito de excluir um seu sócio; aliás, a lei contém um tal prazo em relação ao caso paralelo da exclusão do sócio nas sociedades em nome coletivo (cf. art. 186.º/2 do CSC) e a ordem jurídica, salvo quanto aos direitos indisponíveis e aos direitos declarados imprescritíveis, estabelece, “como regra”, que todos os direitos devem ser exercidos dentro de certo prazo (cf. art. 298.º do C. Civil) e não que os mesmos possam ser exercidos sem qualquer limite temporal.”

Certo que estamos perante uma lacuna da lei, impõe-se a respectiva integração, ou seja, encontrar a norma jurídica que solucione o caso. 37

À integração das lacunas da lei se refere o artigo 10.º do Código Civil estabelecendo o seguinte:

“1 - Os casos que a lei não preveja são regulados segundo a norma aplicável aos casos análogos.

2 - Há analogia sempre que no caso omisso procedam as razões justificativas da regulamentação do caso previsto na lei.

3 - Na falta de caso análogo, a situação é resolvida segundo a norma que o próprio intérprete criaria, se houvesse de legislar dentro do espírito do sistema.”

Importa então, antes de mais, averiguar a existência de casos análogos legalmente regulados, caso em que se aplicará essa norma ao caso omisso.

E quando se verifica a analogia?

Responde o n.º 2 do artigo 10.º do Código Civil:

“sempre que no caso omisso procedam as razões justificativas da regulamentação do caso previsto na lei.”

Ou, nas palavras de Manuel de Andrade38: “[...] A analogia consiste na aplicação dum princípio jurídico que a lei põe para certo facto a outro facto não regulado, mas semelhante, sob o aspeto jurídico, ao primeiro.” (analogia legis)

Pode suceder, porém, que não exista caso análogo e então, conforme determina o artigo 10.º n.º 3 do Código Civil, é preciso reconstituir a norma com recurso “a um complexo de princípios jurídicos, a síntese deles e mesmo o espírito de todo o sistema (analogia iuris)” 39

Ora, começando pelo primeiro método de integração de lacunas, vejamos se existem no Código das Sociedades Comerciais (CSC) normas que visam a composição de interesses análogos aos que se discutem no caso em análise:

É o caso da norma constante do artigo 186.º n.º 2 do CSC em que a propósito da exclusão de sócio, nas sociedades em nome colectivo, se estabelece que “a exclusão deve ser deliberada [...] nos 90 dias seguintes àquele em que algum dos gerentes tomou conhecimento do facto que permite a exclusão”.

Em ambos os casos - o previsto no artigo 242.º e no artigo 186.º n.º 2 - se regula o exercício do direito potestativo extintivo de que é titular a sociedade (artigo 186.º n.º 1), que culminará na perda da qualidade de sócio, exercício que supõe um acto de livre vontade formada no seio do órgão deliberativo interno que é a coletividade de sócios e expressa através de uma deliberação (cf. artigo 246.º/1/c) - que, só por si, nuns casos, ou integrada por uma decisão judicial, noutros casos, produz o efeito jurídico da perda de qualidade de sócio, efeito esse que se impõe ao sócio excluído.

Nem se diga que as sociedades em nome colectivo, a que se reporta o artigo 186.º, têm uma natureza substancialmente diferente das sociedades por quotas. As diferenças que obviamente existem, entre os dois tipos de sociedades não assumem relevo susceptível de afastar a analogia do regime quanto à exclusão de sócio, pelo contrário. Na verdade, “muitas sociedades por quotas são, na realidade, substancialmente análogas às SNC: por um lado, dado o seu cunho personalístico; por outro lado, em virtude de a responsabilidade dos sócios só ser formal e residualmente limitada, dada a prática sistemática de estes garantirem pessoalmente os financiadores e principais credores.” 40

Por isso, afigura-se que se justifica a aplicação analógica do artigo 186.º n.º 2 do CSC

Também no artigo 241.º do CSC estipula o seguinte:

“1. Um sócio pode ser excluído da sociedade nos casos e termos previstos na presente lei, bem como nos casos respeitantes à sua pessoa ou ao seu comportamento fixados no contrato.

2 - Quando houver lugar à exclusão por força do contrato, são aplicáveis os preceitos relativos à amortização de quotas.

3.

[...]”

O artigo 241.º n.º 2 remete assim, designadamente, para o disposto no artigo 234.º (forma e prazo de amortização) que no n.º 2 estipula:

“A deliberação deve ser tomada no prazo de 90 dias, contados do conhecimento por algum gerente da sociedade do facto que permite a amortização”.

Estamos, igualmente, perante a previsão de exclusão de sócio nas sociedades por quotas, mas com base em fundamentos previstos no contrato, não carecendo de interposição de acção judicial, como no caso sub judice. 41

Ora, analisados todos os casos em confronto (artigo 186.º n.º 2, 241.º e 242.º) é patente que as diferenças entre os mesmos não são relevantes, para justificar uma diferença de regime, no tocante ao prazo de que a sociedade dispõe para realizar a deliberação social respectiva. Na verdade, o que sobressai é, antes, a similitude que resulta de todos os casos radicarem em condutas dos sócios passíveis de um juízo de desvalor de tal modo que tornam inexigível que a sociedade continue a suportar a permanência do sócio no seu seio.

E, certamente, foi por isso, como observa o acórdão recorrido que “por estarem em causa comportamentos que perturbam a vida e convivência societárias, por estarem em causa comportamentos que geram situações de incerteza e que o decurso do tempo só faz agravar - que o legislador estabeleceu, no referido artigo 186.º n.º 2 do CSC, um curto prazo de 90 dias para a sociedade manifestar a sua vontade de exercer o direito potestativo de exclusão”.

Ora, tais razões que justificam a fixação de um prazo de 90 dias para a sociedade manifestar a sua vontade de exercer o direito potestativo de exclusão, no caso do artigo 186.º n.º 2, e também no caso do artigo 241.º, verificam-se igualmente no caso previsto no artigo 242.º, o que leva a concluir que estamos perante casos análogos.

Logo, pela regra constante do n.º 1 e 2 do artigo 10.º do Código Civil, deverá aplicar-se ao caso previsto no artigo 242.º (caso omisso), o prazo de 90 dias, previsto nos artigos 186.º n.º 2 e 241.º (casos análogos).

Ainda o disposto no artigo 254.º n.º 5 e 6, 42 a propósito da destituição do gerente por exercício de atividade concorrente com a sociedade, em que se estipula os direitos da sociedade “prescrevem no prazo de 90 dias a contar do momento em que todos os sócios tenham conhecimento da actividade exercida pelo gerente[...]”43, apresenta a mesma razão. Está em causa, igualmente, a defesa da sociedade em relação a comportamentos gravemente atentatórios dos interesses da mesma, por parte de um gerente. Esta similitude é suficientemente relevante para que possa ser considerado um caso análogo, não obstante a diferença assinalada de se tratar de um gerente e não de um sócio.

Assim, aplicando-se por analogia, maxime o disposto no artigo 186.º n.º 2, reforçado pelos outros preceitos mencionados, a deliberação a que se refere o artigo 242.º terá de ocorrer no prazo de 90 dias, a contar da data em que algum dos gerentes tomou conhecimento do facto que permita a exclusão. 44

*

Mas, aqui chegados, ainda não temos uma resposta completa para a questão de direito que se nos coloca.

Como resulta, desde logo, da epígrafe do artigo 242.º, estamos no âmbito de uma “exclusão judicial de sócio”, que se distingue da simples “exclusão de sócio” prevista no artigo 241.º

Naquela, realizada a deliberação dos sócios sobre a proposição da acção de exclusão, ainda é necessário, obviamente, interpor tal acção. 45 E pergunta-se: qual o prazo, se é que existe um prazo, dentro do qual a sociedade terá de propor a acção, já que o artigo 242.º não o define?

E de novo, colocamos a questão, estaremos perante uma lacuna da lei, ou estará previsto esse prazo noutro preceito do Código das Sociedades Comerciais, designadamente o já citado artigo 174.º?

Será que o exercício do direito de propor a acção de exclusão de sócio, nos termos do disposto no artigo 242.º n.º 2 estará sujeito ao prazo de prescrição previsto no referido artigo 174.º?

Como já ficou explicitado supra, a propósito do prazo para proceder à deliberação de sócios, o prazo para a propositura da acção prevista no artigo 242.º não é susceptível de integrar-se em qualquer das previsões do artigo 174.º

Desde logo, porque como ficará explicitado mais adiante, este prazo de propositura de acção é um prazo de caducidade e não de prescrição. Como se desenvolverá um pouco mais adiante, o que separa os institutos da prescrição e da caducidade é a diversidade da função do prazo: num caso, fixa o lapso de tempo em que há-de iniciar-se o exercício (caducidade); noutro, limita a duração da negligência, da exigibilidade (prescrição). Ora, decorre de todas as situações previstas no artigo 174.º que se referem a fixação de um prazo para o exercício de direitos de crédito - maxime direitos de indemnização. Assim sendo, em tudo o que o artigo 174.º não contempla, vigora o regime geral do Código Civil - nomeadamente quanto à suspensão da prescrição e quanto à sua interrupção. Recorde-se ainda que o simples decurso do prazo não extingue o direito do credor, apenas transforma o lado passivo do vínculo em obrigação natural (artigo 304.º, 402.º e 403.º do Código Civil) 46. Assim, no caso de o devedor não invocar a prescrição e cumprir espontaneamente a prestação, não poderá repeti-la, já que o credor goza de soluti retentio. Bem se vê que, se todo este regime jurídico se adequa perfeitamente ao disposto no artigo 174.º do CSC, tal não sucede relativamente à questão em análise em que está em causa fixar um período de tempo durante o qual a sociedade poderá exercer o seu direito, em relação ao qual não existe a correspectiva obrigação por parte do demandado. Logo, não se coloca a questão de exigibilidade do direito do autor.

E, assim sendo, impondo-se concluir que o prazo de propositura da acção prevista no artigo 242.º não se integra em qualquer das previsões do artigo 174.º, está excluída a aplicabilidade do prazo de cinco anos ali definido.

Não encontrando no Código das Sociedades Comerciais norma que dê resposta à questão em análise, encontramo-nos de novo perante uma lacuna da lei.

Porém, neste caso, relativamente ao prazo para a propositura da acção, não encontramos no sistema jurídico norma que preveja caso análogo que possa ser aplicado por analogia legis, tal como ocorreu em relação à deliberação da sociedade.

Assim, nos termos do disposto no artigo 10.º n.º 3 do Código Civil, resta elaborar a norma que resulta do “espirito do sistema”. 47

Tal como bem se diz no acórdão recorrido “não se encontrando, como é o caso, uma disposição aplicável a um caso afim, a norma a constituir tem que se inspirar do que se extrai dos vários casos regulados, tem que corresponder à aplicação dum princípio geral não expresso.

E, claramente, podemos afirmar que perpassa por todo o “espírito do sistema” e por todos os casos regulados uma “aversão” em relação ao protelamento de situações de incerteza: as tomadas de posição da sociedade e dos sócios - a vontade de amortizar, de se exonerar, de excluir e de destituir - têm que ser tomadas rapidamente, num prazo repetidamente fixado em 90 dias (cf. artigos 184.º/5, 185.º/3, 186.º/2, 234.º/2, 240.º/3 e 254.º/6, todos do CSC).

A fixação pela lei deste curto prazo de 90 dias, para que a sociedade e os sócios possam exercer os referidos direitos, nos sucessivos casos elencados, demonstra que o equilíbrio e coerência do sistema não admitiriam a ausência de prazo para a propositura da acção a que alude o artigo 242.º n.º 2 e antes exigem que entre a deliberação dos sócios ali prevista e o momento da propositura da acção decorra um curto período de tempo. Ora, extraindo dos demais mencionados preceitos legais um princípio comum concretizado numa justa medida temporal que foi aplicada às diversas situações em apreço, importa, em conformidade com o disposto no artigo 10.º n.º 3 do Código Civil, criar a norma que seria criada, se houvesse de legislar-se “dentro do espírito do sistema”, ou seja criar a regra geral e abstracta que contemple o tipo de casos em que se inclui o caso omisso.

Tal como ensina Manuel de Andrade48 “[...] embora o direito positivo não apresente disposição especial para certa matéria ou caso, há nele, porém, capacidade e força latente para a elaborar e contém germes de uma série indeterminada de normas não expressas, mas ínsitas e vigentes no sistema. Com efeito, se duma só disposição ou dum grupo de normas se deduz um princípio jurídico mais amplo, é de concluir, na dúvida, que, visto ter aplicado semelhante princípio no caso particular, a ordem jurídica o aprova na sua generalidade, e portanto todas as consequências que do princípio derivam.”

Da análise do grupo de normas mencionado resulta a consideração do prazo de noventa dias como aquele que concilia a celeridade necessária tendo em conta os interesses que estão em causa, mas também a garantia de um efectivo exercício dos direitos das partes envolvidas. A norma a constituir terá, pois, de inspirar-se naquilo que se deduz dos referidos preceitos, correspondendo à aplicação de um princípio geral, tal como é próprio da norma legal.

Assim, de acordo com o exposto, a norma a criar nos termos do disposto no artigo 10.º n.º 3 do Código Civil, a aditar ao artigo 242.º do CSC, terá o seguinte teor:

“A propositura da acção de exclusão de sócio deve ocorrer no prazo de 90 dias, a contar da data da deliberação dos sócios a que se refere o n.º 2.”

E, assim, não podemos deixar de concluir, tal como concluiu o acórdão recorrido, que o exercício do direito de exclusão judicial de sócio previsto no artigo 242.º do CSC pressupõe o cumprimento de dois prazos: (i)o primeiro, de 90 dias, a contar da data em que algum dos gerentes tomou conhecimento do facto que permite a exclusão. Durante este primeiro prazo deverá ser deliberada pelos sócios a propositura da acção de exclusão. (ii) o segundo, de 90 dias a contar da data daquela deliberação, deve ser efectivamente interposta a acção de exclusão. 49

Há quem entenda que tal acção deverá ser proposta dentro do mesmo intervalo temporal, ou seja ainda antes de expirados os 90 dias a contar do conhecimento pelos sócios dos factos em que se baseia a exclusão. 50 Carolina Cunha embora inclinando-se para essa solução, não apresentando, contudo, argumentos a favor desse entendimento, refere antes ser sensível “às dificuldades práticas que se podem levantar, sobretudo na ausência de uma norma legal que claramente o imponha e que funcione como horizonte de previsibilidade para todos os envolvidos”.

Ora, é também por essas razões que aqui defendemos a existência de um segundo prazo de 90 dias, prazo esse a contar da deliberação que determinou a propositura da ação de exclusão, encontrado por analogia iuris, nos termos expostos. Na verdade, não obstante a necessidade de satisfação das exigências de celeridade do tráfego jurídico típicas do Direito Comercial e Societário, fundamentarem a defesa do prazo de 90 dias para a deliberação dos sócios a que se refere o artigo 242.º n.º 2, não pode ser razão para exigir que, também nesse mesmo prazo, devesse ser interposta a acção judicial. Desde logo porque tal único prazo de 90 dias para a convocação de uma assembleia geral, realização da mesma, seguida das diligências necessárias ao estabelecimento de mandato judicial e subsequente propositura da acção, seria um prazo demasiado curto que poderia inviabilizar, na prática, o pleno exercício do direito, por parte da sociedade. Por outro lado, tal entendimento conduziria ao esvaziamento da analogia encontrada com o disposto no artigo 186.º n.º 2, pois que, no caso de exclusão judicial de sócio, a sociedade nunca beneficiaria de um prazo de 90 dias para deliberar, mas de um prazo muito inferior.

Afigura-se estar desta forma prevenido o risco de “a sociedade propor acções precipitadas” 51, já que o comportamento do sócio que está em causa é um comportamento intolerável que põe em risco a própria sobrevivência da sociedade, logo, de tal modo manifesto que não colocará especiais problemas de prova. Esses factos terão de constar da acta da deliberação de sócios relativamente à propositura da acção, o que facilitará a elaboração da peça processual que dará início à acção. Por outro lado, dada a gravidade do comportamento em causa, deve o interesse da sociedade e do sistema económico sobrepor-se a qualquer tipo de condescendência relativamente ao sócio prevaricador.

Impõe-se, pois, concluir, quanto ao prazo de que dispõe uma sociedade por quotas para proceder à exclusão de sócios, que há dois prazos a considerar: (i) um primeiro prazo de 90 dias, para realizar a deliberação que desencadeia o processo de exclusão, a contar do conhecimento dos factos que fundamentam a exclusão, por algum dos gerentes e (ii)um segundo prazo, também de 90 dias, para proceder à propositura da acção judicial de exclusão, prazo este a contar da data da deliberação que determinou a propositura da ação de exclusão52.

b)

Consequência jurídica do esgotamento dos prazos referidos

Importa analisar a consequência jurídica que ocorrerá no caso de a sociedade, titular do direito em análise, não o exercer, deixando esgotar os referidos prazos. A questão está em saber se estamos perante um prazo de prescrição, neste caso de prescrição extintiva, ou um prazo de caducidade. Como distinguir a caducidade da prescrição extintiva?

Ao regular o tempo e sua repercussão nas relações jurídicas, o Código Civil estabelece no artigo 298.º o seguinte:

“1. Estão sujeitos a prescrição, pelo seu não exercício durante o lapso de tempo estabelecido na lei, os direitos que não sejam indisponíveis ou que a lei não declare isentos de prescrição.” E no n.º 2 estipula: “Quando, por força da lei ou por vontade das partes, um direito deva ser exercido dentro de certo prazo, são aplicáveis as regras da caducidade, a menos que a lei se refira expressamente à prescrição.”

Por si só, o normativo legal não nos esclarece de forma decisiva, sobre a questão colocada, pelo que muito útil será o contributo doutrinário.

Na verdade, como refere Vaz Serra53, “a caducidade não se distingue da prescrição pelo facto de se referir a prazos de propositura de acções. Estes prazos podem ser de caducidade, mas também podem ser de prescrição. Quando a lei diz que certa acção deve ser proposta em determinado prazo, nada nos elucida isso, sem mais, acerca da natureza do instituto que pretende considerar aplicável.”

Por sua vez, nota Manuel de Andrade54: “[...] o fundamento específico do instituto prescricional [...] é a inércia do respectivo titular que ou significa renúncia ao seu direito ou de qualquer maneira o torna indigno de protecção jurídica [...]. O fundamento específico da caducidade é o da necessidade de certeza jurídica. Certos direitos devem ser exercidos durante certo prazo, para que ao fim desse tempo fique inalteravelmente definida a situação jurídica das partes. É de interesse público que tais situações fiquem, assim, definidas de uma vez para sempre, com o transcurso do respectivo prazo.”

E sintetiza aquele Mestre, os aspectos em que se distingue a caducidade da prescrição extintiva:

Será, pois, critério mais fidedigno para a classificação do prazo como de prescrição ou de caducidade a avaliação do fundamento subjacente à fixação desse prazo.

O que separa os institutos da prescrição e da caducidade é a diversidade da função do prazo: num caso, fixa o lapso de tempo em que há-de iniciar-se o exercício (caducidade); noutro, limita a duração da negligência, da exigibilidade (prescrição) 55.

Não obstante as dificuldades que possam surgir aplicando estes critérios56, sendo certo que sempre casos particulares podem suscitar dúvidas específicas, cremos que os mesmos contribuem para uma melhor interpretação do disposto no artigo 298.º do Código Civil.

É certo que, de acordo com o disposto no artigo 298.º n.º 2 supra mencionado, quando a lei não referir expressamente que um determinado prazo é de prescrição, deverá entender-se que é de caducidade. Ora, dado que como já referido, não se podendo integrar os prazos em análise na previsão do artigo 174.º que define os direitos que estão sujeitos ao prazo de prescrição, forçoso será concluir, à luz do disposto no artigo 298.º do Código Civil que estamos perante prazos de caducidade. Acresce que à mesma conclusão se chega através da aplicação dos supra mencionados critérios doutrinários.

Não vemos, igualmente, qualquer obstáculo processual em requalificar os prazos em análise como de caducidade apesar da diferente qualificação que os Réus lhe atribuíram, face ao disposto no artigo 5.º n.º 3 do CPC.

c)

Caducidade do direito da Autora

Importa, por fim, averiguar se, perante a factualidade apurada, foram ou não ultrapassados os dois prazos de 90 dias de que a Autora dispunha para exercer o seu direito.

Conforme resulta da alínea b) dos factos provados, do teor da acta da assembleia geral de sócios, realizada em 31 de maio de 2022, e do cotejo entre os factos que constam dessa acta e os factos que são atribuídos aos Réus e que fundamentam o pedido de exclusão judicial dos mesmos, impõe-se concluir que os gerentes da Autora tinham conhecimento de tais factos, pelo menos nessa data. Tal significa que a Autora dispunha de um prazo de 90 dias para proceder à deliberação a que se refere o artigo 242.º n.º 2. Ou seja, a assembleia geral de sócios com a ali mencionada finalidade, deveria ter ocorrido até 29 de agosto de 2022.

Porém, tal não ocorreu. A assembleia geral de sócios da Autora em que foi deliberada a exclusão dos sócios Réus e a propositura da competente acção judicial, só ocorreu em 21 de setembro de 2022 (vide alínea c) dos factos provados).

Isto significa que, por ter deixado esgotar o referido prazo legal de 90 dias, a contar do conhecimento dos factos que fundamentam a exclusão, a Autora deixou caducar pelo não exercício tempestivo o invocado direito de excluir os sócios, ora Réus.

É certo que a presente acção de exclusão judicial de sócio, foi proposta no prazo de 90 dias, a contar da deliberação que determinou a propositura da ação de exclusão - 21 de setembro de 2022-, já que a petição inicial deu entrada em juízo em 20 de dezembro de 2022. Porém, o cumprimento deste segundo prazo já não releva, dado que por força do esgotamento do primeiro prazo, a Autora já tinha deixado caducar o seu direito.

*

Improcedem, assim, as conclusões da Autora/Recorrente, confirmando-se o acórdão recorrido.

V - DECISÃO

Pelo exposto, acorda o Pleno das Secções Cíveis do Supremo Tribunal de Justiça:

1 - Julgar improcedente o recurso extraordinário interposto e confirmar o acórdão recorrido;

2 - Uniformizar jurisprudência com o seguinte teor:

“A deliberação dos sócios a que se refere o artigo 242.º n.º 2 do Código das Sociedades Comerciais deve ocorrer no prazo de 90 dias a contar da data em que os respectivos gerentes tiveram conhecimento dos factos que fundamentam a exclusão de sócio.

Por sua vez, a acção de exclusão deve ser proposta, no prazo de 90 dias, a contar da data dessa deliberação.

Caduca o direito da sociedade, caso não seja cumprido algum daqueles prazos.”

3 - Custas a cargo da Recorrente.

*

Após trânsito em julgado, remeta-se certidão do acórdão para publicação na 1.ª série do Diário da República (arts. 687.º, 5, 695.º n.º 1, CPC).

Lisboa, 23 de setembro de 2025. - Maria de Deus Simão da Cruz Damasceno Correia (relatora) - Anabela Luna de Carvalho - Orlando dos Santos Nascimento - Cristina Tavares Coelho - Rui Machado e Moura - Carlos Portela - Arlindo Oliveira - António Domingos Robalo - Maria dos Prazeres Pizarro Beleza - Graça Amaral - Maria Olinda Garcia - Catarina Serra - António Oliveira Abreu - Maria João Vaz Tomé - António Moura de Magalhães - António Barateiro Martins - Fernando Baptista de Oliveira - Mário Serrano - Luís Filipe Castelo Branco do Espírito Santo - Isabel Salgado - Jorge Leal - Emidio Francisco Santos - Nelson Borges Carneiro - Luís Fernando dos Santos Correia de Mendonça - Maria do Rosário Gonçalves - Henrique Antunes - Maria Clara Sottomayor - vencida, de acordo com a declaração de voto da Conselheira Fátima Gomes - Pedro de Lima Gonçalves (vencido, acompanho a declaração de voto da Exª Srª Conselheira Fátima Gomes) - Fátima Gomes, vencida, conforme declaração anexa - José Maria Ferreira Lopes - Ana Paula lobo, vencida pelas razões constantes da declaração de voto da Conselheira Fátima Gomes.


Vencida, pelos seguintes fundamentos.

1 - A exclusão do sócio da SQ por motivo que não esteja legalmente tipificado e não seja contratualmente definido no contrato de sociedade - isto é que corresponda à situação da clausula geral de exclusão do artigo 242.º do CSC - é apenas uma das situações reguladas na SQ para a exclusão de sócio.

As exclusões de sócio fundadas em motivos legalmente tipificados, ou com base em cláusula estatutária e a exclusão à luz do 242.º do CSC têm diferenças entre si, que não são só a fonte da situação que origina a exclusão - mas se repercutem também no processo e consequências sobre a qualidade de sócio e sobre a perda da quota.

A regra fundamental e geral sobre a exclusão do sócio na SQ é o artigo 242.º, n.º 1, que diz:

1 - Pode ser excluído por decisão judicial o sócio que, com o seu comportamento desleal ou gravemente perturbador do funcionamento da sociedade, lhe tenha causado ou possa vir a causar-lhe prejuízos relevantes.

Na exclusão por via judicial não estamos perante uma exclusão em que a deliberação societária seja o marco decisivo da extinção da participação social, porque a lei exige uma deliberação social e uma acção judicial.

Assim, não podemos ir buscar o paralelismo directo entre o prazo de 90 dias que consta do artigo 234.º, por via do artigo 241.º/2.

Na exclusão do artigo 242.º a deliberação social não afasta o sócio da qualidade de membro da organização, pois a lei exige que para além da deliberação haja uma sentença que decida pela exclusão - deliberação não é constitutiva da exclusão.

A exclusão fundada em cláusula tem a deliberação de exclusão como fonte da perda da qualidade de sócio, seguindo-se, à deliberação, o procedimento de destinação da “quota” correspondente à participação social excluída - seja por amortização seja por aquisição pela sociedade ou terceiro.

Assim, o prazo que a lei tem de 90 dias após a deliberação para decidir do destino na quota - ex. 241/2, que remete para 234.º/2 - não cumprem a mesma função que a interposição de acção judicial de exclusão de sócio cumpre no âmbito do artigo 242.º

Isto significa que o artigo 242.º ao não ter estabelecido prazos para deliberar e para intentar a acção não contém lacuna, por se aplicar ao caso o regime do artigo 174.º do CSC, que estabelece o prazo de 5 anos - prazo de prescrição.

A aplicação do prazo de 5 anos do artigo 174.º do CSC à exclusão do sócio pedida pela sociedade enquadra-se na letra do preceito e só uma solução que tenha um prazo razoável para esta exclusão tem justificação material.

É que esta exclusão é fundada na conjugação de vários comportamentos do sócio, isolados, e muitas vezes espaçados no tempo, que, quando analisados conjuntamente, podem vir a preencher o conceito legal aberto que motiva a exclusão. Ou dito de outra forma, é um facto constitutivo de produção sucessiva, em que não é fácil determinar qual o momento em que a sociedade considera que está preenchido o requisito “seu comportamento desleal ou gravemente perturbador do funcionamento da sociedade, lhe tenha causado ou possa vir a causar-lhe prejuízos relevantes”.

A própria sociedade precisa de tempo para tomar consciência do facto - e os 90 dias apontados no projecto traduzir-se-iam em coartar essa possibilidade de análise dos sucessivos factos pois levaria a considerar por hipótese o conhecimento do primeiro facto, em desfavor de outros posteriores, que por si só não querem significar o sentido de “corte” envolvido na exclusão.

A situação não tem paralelo com a exclusão fundada em cláusula do contrato porque essa cláusula tem de ser precisa no sentido de se saber com clareza qual o facto que determina o seu accionamento.

Essa clareza do facto está presente igualmente nas situações de exclusão fundada em motivo legal especificado, como sucede com o sócio remisso.

É requisito da exclusão judicial a existência de comportamentos que violem os deveres de lealdade de forma tão grave que tornam inexigível que a sociedade continue a tolerar o sócio na sua esfera que a sociedade tem de alegar e provar numa ação de exclusão judicial de sócio.

Isso apenas é possível quando a sociedade adquirir consciência da situação de ruptura da lealdade - e os correspondentes elementos probatórios - não apenas sobre um comportamento pontual, mas sim sobre o conjunto dos comportamentos do sócio, que pela sua extensão e gravidade permitem fundamentar a justa causa de exclusão e a inexigibilidade da manutenção do vínculo societário, pois só nesse momento é que a sociedade está em condições de demonstrar que os comportamentos do sócio em questão se enquadram na previsão do artigo 242.º, n.º 1, do CSC.

Considerar-se que o prazo para propositura de uma acção principal de exclusão judicial de sócio pode iniciar-se quando a parte ainda tem apenas um conhecimento meramente indiciário dos factos que fundamentam tal acção, implica que a acção está necessariamente condenada ao insucesso.

Uma interpretação normativa segundo a qual basta um mero conhecimento indiciário de comportamentos desleais do sócio para que se inicie o prazo de 90 dias para a propositura de uma acção de exclusão judicial de sócio impossibilita que as sociedades possam exercer de forma efectiva o direito que lhes é concedido no artigo 242.º do CPC, pois, na vasta maioria dos casos, atenta a natureza dos comportamento em questão e o ónus probatório imposto à sociedade, seria totalmente impossível à sociedade recolher toda a informação e prova de que necessita para que a acção de exclusão a propor possa ter a probabilidade de vir a ser julgada procedente.

A situação é ainda mais gravosa quando os prazos aplicáveis à propositura de acções da sociedade contra os seus sócios decorrentes do CSC são de 5 anos - nos termos do artigo 174.º do CSC - sendo certo que neste dispositivo não se encontram apenas previstas situações relativas a direito de crédito, mas quaisquer direitos1 (questão que foi esclarecida pela doutrina no preceito correspondente do Cód. Comercial - artigo 150.º - e que foi seguida em Ac do STJ de 6/5/1955 (BMJ 49.º, p. 530) - como indica Ferrer Correia/Lobo Xavier, in anotação jurisprudencial - RDES, out-Dez 1965, ano XII, n.º 4 p. 32-3 - incluindo-se ali também direitos potestativos).

A solução propugnada no projecto ao afirmar que visa proteger o interesse social conduz ao resultado oposto: permitir a prevalência da manutenção da qualidade de sócio, sem possibilidade de discussão do verdadeiro interesse social, em prejuízo do interesse da sociedade em prosseguir sua missão económica e social com uma colectividade de sujeitos que cumpram os compromissos associados com a participação social societária adquirida e em unidade com o projecto empresarial comum.

A solução de considerar que a sociedade deve ter um prazo razoável - e de prescrição - para decidir se deve propor a exclusão de um seu sócio, não obedece à letra nem ao espírito do artigo 174.º do CSC.

A solução de considerar que a sociedade tem um prazo de 90 dias desde o conhecimento de qualquer facto-indício introduz um elemento de caducidade, de conhecimento oficioso, em matéria disponível e contrária ao interesse da sociedade; potencia a manutenção de funcionamentos disruptivos da própria sociedade - empresa, na sua ligação com a posição de sócios; conduz à propositura de acções tipicamente votadas ao insucesso por inexistência/dificuldade de recolha de meios de prova em tempo útil, quando a prova do facto excludente recai sobre a sociedade.

Quando muito, a interpretar-se o disposto nos artigos 234.º, n.º 2 (ex vi artigo 241.º, n.º 2), e 242.º CSC do CSC com vista a aplicar o prazo de 90 dias previsto na primeira norma referida, sempre teria de se fazer uma interpretação normativa segundo a qual o prazo de 90 dias em questão se inicia com o conhecimento cabal, efetivo e fundamentado da existência de justa causa de exclusão judicial do sócio, conjugando-se o prazo de caducidade com o de prescrição de cinco anos do artigo 174.º do CSC.

2 - Sociedade em nome colectivo - A norma do artigo 186.º, n.º 1, alínea a) do CSC, que se pretende aplicar por analogia, na sua essência alude ao prazo de 90 dias a partir do conhecimento do facto ilícito, mas este prazo não é sempre e só de 90 dias:

Há até a possibilidade de na primeira hipótese prevista no artigo 186.º, n.º 1, alínea a) se poder questionar o seguinte: sendo o sócio também gerente (que é o normal - 191.º, n.1), e havendo violação do dever de concorrência (180.º), aplica-se o prazo de 90 dias para o excluir? Ou pode a sociedade pretender primeiro a destituição de gerente, por esse fundamento, e depois a consequente exclusão de sócio? Neste caso, qual o prazo? 90 dias do conhecimento da actividade concorrente?

Talvez daqui resulte que o interesse da sociedade e o interesse do sócio não exigem que se estabeleça um prazo de 90 dias para qualquer exclusão por violação de deveres de sócio, sem atender a outros elementos.

3 - Na Sociedade por quotas - No artigo 242.º - exclusão judicial em SQ - a situação do prazo para deliberar a propositura da acção de exclusão não está prevista, nem se justifica a aplicação analógica com o artigo 186.º, n.º 1, al. a), na parte em que exige uma deliberação tomada no prazo de 90 dias a contar do conhecimento do facto que pode determinar a exclusão por via judicial, quando a existência da acção;

A situação da exclusão judicial é específica e não deve ter o mesmo tratamento da exclusão por via de cláusula contratual - em que o prazo de 90 dias é aplicável por via do artigo 241.º, n.º 2, que remete o artigo 234.º

Vejamos agora o gerente que exerce actividade concorrente com a SQ

Pode ser destituído por justa causa - n.º 5 do artigo 254.º (além de constituir justa causa…, obriga o gerente a indemnizar a sociedade pelos prejuízos sofridos).

Os direitos da sociedade (são dois - destituir; requerer a indemnização) previstos no n.º 5, conforme estabelece o n.º 6 prescrevem:

Na SQ pode acontecer que o sócio seja simultaneamente gerente - e até que tenha um direito especial à gerência (257.º, n.3) - e nesse caso a sua destituição de gerente tem de ser por via judicial; o mesmo sucederá se a sociedade tiver dois gerentes apenas (257.º, n.º 5).

Este direito da sociedade de destituir o gerente também pressupõe uma deliberação tomada no prazo de 90 dias a contar do conhecimento? - é certo que se exige deliberação social - 246.º, n.º 1, al. d)

4 - Para se concluir no sentido de não haver lacuna no que respeita ao prazo que a sociedade tem para deliberar, poder-se-ia ainda argumentar:

1.

2.

O artigo 174.º, n.º 1 é perfeitamente aplicável na medida em que prevê quanto aos direitos da sociedade contra os sócios o não cumprimento de qualquer outra obrigação social (al. d)).

Não se pode entender que esta referência a obrigação social corresponda a uma obrigação em sentido restrito, estando, no lado activo, pressuposto um direito subjectivo, de crédito ou de outro tipo, incluindo-se aqui os direitos potestativos, como o de exclusão.

Importa também referir que o regime da prescrição (em vez da caducidade) é o mais adequado à regulação do conflito de interesses no âmbito deste direito potestativo, porque tutela a certeza e segurança do sujeito passivo, na medida em que o sujeito activo teve um comportamento de desinteresse pela sua posição e exercício do direito - argumento já usado por Ferrer Correia/ Lobo Xavier, no estudo citado2.

5 - Tenderia a considerar que o direito de exclusão dos sócios não se encontra prescrito e que a acção deve prosseguir, a fim de se saber se estão reunidos os pressupostos da exclusão fundada na cláusula geral.

Não tomaria conhecimento da questão do prazo de interposição da acção - como elemento autónomo - porque o prazo dos 5 anos inclui também essa problemática e, na situação concreta, não foi decisivo para efeitos de contradição de julgados.

Uniformizaria jurisprudência a mandar aplicar à exclusão de sócio fundada na clausula geral o regime geral da prescrição do artigo 174.º do CSC.

6 - Pode suscitar-se a dúvida de saber se além do prazo para a deliberação ainda há que equacionar a questão em termos de lacuna da lei para o prazo de interposição da acção - mas não tenho a certeza da necessidade de avançar com o desenvolvimento desse problema, uma vez o que foi decisivo para o desfecho do processo que esteve na origem do RUJ foi o problema do prazo para a deliberação.

Lisboa, 23 de Setembro de 2025

Fátima Gomes


Notas de rodapé do acórdão:

1 Disponível em www.dgsi.pt

2 Neste sentido, veja-se, entre outros, o acórdão deste STJ, de 10-05-2018, no âmbito do recurso para uniformização de jurisprudência n.º 2643/12.0TBPVZ.P1. S1-A, disponível in www.dgsi.pt.

3 In Recursos em Processo Civil, 6.ª Edição Atualizada, Almedina, 2020, p. 549.

4 Neste sentido, veja-se o Acórdão do STJ de 20-11-2019, Recurso para uniformização de jurisprudência n.º 433/11.7TVPRT.P1.S2-A, onde se afirma que o STJ tem vindo a entender, “de forma pacífica e reiterada, que a contradição relevante, neste âmbito, pressupõe ainda a identidade do núcleo essencial das concernentes situações fácticas.”.

5 In Comentário ao Código das Sociedades Comerciais, Sociedade por Quotas, Vol. II. pp. 61 e 62 (anotação ao artigo 242.º do CSC).

6 Vide Vaz Serra, in BMJ 105.º, pág. 46.

7 In Notas ao CC, vol. II, pág. 96

8 In A exclusão de sócios (em particular nas sociedades por quotas), Problemas do Direito das Sociedades, 2.ª reimpressão, 2008, Almedina, pp. 203 e ss.

9 Acórdão do STJ de 07-10-2003, Processo 03A323, disponível em www.dgsi.pt

10 Certamente se quis dizer “destituição”

11 Processo 97A138, disponível em www.dgsi.pt apenas o sumário que se transcreveu.

12 Processo 28/2001.E1.S1, disponível em www.dgsi.pt

13 Processo 1197/22.4T8CBR.C1.S1,disponível em www.dgsi.pt

14 Processo 5367/20.1T8VNG-A.P1, disponível em www.dgsi.pt.

15 Processo 5367/20.1T8VNG-A.P1, disponível em www.dgsi.pt.

16 Processo 2999/21.4T8CBR-A.C1, disponível em www.dgsi.pt

17 Processo 3160/13.7TBBRG.G1, disponível em www.dgsi.pt

18 Processo 10010/19.9T8LSB-A.P1, disponível em www.dgsi.pt

19 Processo 2992/11.5TBSTB-A.E1, disponível em www.dgsi.pt

20 Será deste diploma legal todos os artigos que vierem a ser citados sem indicação de proveniência.

21 Jorge Coutinho de Abreu, Curso de Direito Comercial, Vol. II, Das Sociedades, 2.ª reimpressão da Edição de 2002, p.305.

22 Ob.Cit.

23 Vide Acórdão de 15-02-2005, Processo 04A4369, disponível em www.dgsi.pt

24 Catarina Pontes, “Da irresponsabilidade dos sócios na prossecução do interesse social: direito de exclusão de sócio”, in Estudos de Homenagem ao Professor Doutor Manuel Pita, Almedina, 2022, p.165.

25 Catarina Pontes, idem.

26 Vide Acórdão de 16-06-2020, Processo 2231/17.5T8STS.P1.S2, disponível em www.dgsi.pt

27 Idem.

28 “Notas sobre a exclusão judicial de sócios de SpQ. Prazo(s) para o exercício do direito de exclusão judicial”, disponível em htt://www.evaristomendes.eu/files/p_07_02

29 Afigura-se que é nas suas cinco alíneas (a), b),c),d) e e) que se regula o ínicio da contagem do prazo previsto no corpo do artigo, visto que nenhuma restrição é feita nesse corpo, ao remeter para todas as alíneas, na expressão “ contados a partir da verificação dos seguintes factos”.

30 Evaristo Mendes, idem, p.4

31 Como defende Evaristo Mendes (loc.cit.), p.4.

32 Vide, a título exemplificativo, Mario Júlio de Almeida Costa, Direito das Obrigações, 10.ª edição, 2006, Almedina, pp.1007-1012.

33 Tal como defende o Autor citado.

34 Como se refere no Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 12-07-2022, Processo 2999/21.4T8CBR. C1, disponível em www.dgsi.pt:”Ora, ao contrário do que acontece com o direito de exclusão “por força do contrato”, para o qual se prevê a obrigatoriedade de a deliberação ser tomada no prazo de 90 dias (n.º 2 do art. 241.º, ao remeter para o regime da amortização de quotas), a lei não estabelece qualquer prazo para o exercício do direito de exclusão de sócio, através da deliberação dos sócios e consequente propositura de ação judicial prevista no n.º 1 do artigo 242.º do CSC.”

35 É este igualmente o entendimento Catarina Pontes in Ob cit, p.165, defendendo que estamos perante “um caso omisso”.

36 Castro Mendes, Introdução ao Estudo do Direito, Edição da FDUL, Lisboa, 1977, p.373.

37 José de Oliveira Ascensão, “A integração das lacunas da lei e o novo Código Civil” in “O Direito”, ano 100, 273-304.

38 Ensaio sobre a Teoria da Interpretação das Leis, pp158-159

39 Idem.

40 Evaristo Mendes, loc. Cit., p.6.

41 Juliano Pereira in O Direito de Exclusão de Sócio na Sociedade Anónima, Almedina, 2009, p.88, defende a aplicação analógica destes preceitos (241.º n.º 2 e 234.º n.º 2) para defender o prazo de 90 dias para a sociedade deliberar a exclusão de sócio nos termos do artigo 242.º n.º 2.

A consulta deste documento não substitui a leitura do Diário da República correspondente. Não nos responsabilizamos por eventuais incorreções resultantes da transcrição do original para este formato.

Este texto é publicado ao abrigo das condições de reutilização do próprio DRE, não ao abrigo de uma licença Legalize nem de domínio público. DRE
Acesso universal e gratuito ao Diário da República, nos termos do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 83/2016, de 16 de dezembro, que abrange a impressão, o arquivo, a pesquisa e o livre acesso ao conteúdo dos atos publicados, em formatos eletrónicos de acesso aberto; e do regime de dados abertos da Lei n.º 68/2021, de 26 de agosto. A edição eletrónica é a que faz fé (eli:legal_value = official).