Lei n.º 32-A/2002 — Grandes Opções do Plano para 2003

Tipo Lei
Publicação 2002-12-30
Estado Em vigor
Texto Tal como publicado
Ministério Assembleia da República
Fonte DRE
artigos 5

Este é o ato tal como foi publicado. As alterações posteriores não estão incorporadas no texto: cada uma é um ato autónomo neste repositório e uma entrada no historial desta lei.

Grandes Opções do Plano para 2003

Histórico de alterações JSON API

. a criação de uma Carta Nacional de Equipamentos de Saúde com vista a evitar sobreposição de estruturas e a proporcionar uma correcta gestão da capacidade instalada;

. a garantia do acesso diferenciado aos meios complementares de diagnóstico, com liberdade de escolha dos prestadores, desde que estes possuam certificados de qualidade.

. o incentivo da poupança a aplicar na constituição de Fundos e Seguros de Saúde e outros sistemas complementares de assistência, mediante adequadas compensações fiscais.

. a diversificação das profissões da saúde e a promoção de uma reforma profunda no actual sistema de ensino, susceptível de melhorar o processo de recrutamento, formação e educação dos profissionais de saúde, a qualidade académica e pedagógica dos docentes e o seu interesse e dedicação na investigação científica;

. o desenvolvimento de uma política de formação coerente, contribuindo para o ensino pré- e pós graduado nas áreas da saúde, reconhecendo a variedade da especialização técnica profissional;

. o fortalecimento e a dignificação das carreiras profissionais, estabelecendo regras de progressão baseadas em critérios de qualificação científica, técnica e profissional;

. a promoção da diversidade contratual, com garantias de segurança.

. a implementação de programas de prevenção da doença, com destaque para o papel a desempenhar pelo médico de família, devendo-se reconhecer em particular as situações mais graves do nosso tempo tais como a SIDA, a tuberculose, as hepatites, as doenças oncológicas, as doenças sexualmente transmissíveis, a diabetes, as doenças cardio e cérebro vasculares, as doenças associadas ao tabagismo e a toxicodependência;

. a adopção de uma política nacional de prevenção ao alcoolismo, com meios humanos, técnicos e financeiros reforçados para a informação, o aconselhamento, a formação profissional e o tratamento, reabilitação e reinserção social.

Combate à Toxicodependência

Reconhecendo a toxicodepêndencia como doença, assume-se a necessidade de combater este flagelo da sociedade portuguesa. A importância do problema, num país com uma das maiores prevalências de consumo problemático de drogas de toda a União Europeia, exige um combate formal e decidido. Tendo presente estes objectivos, e sob o ponto de vista organizacional, proceder-se-á à fusão do IPDT e do SPTT, por forma a concentrar numa única tutela, no âmbito do Ministério da Saúde, todos os serviços que detêm competências nas áreas da prevenção, do tratamento e da reinserção.

Em matéria de prevenção, e para além das acções em curso, será dada prioridade ao trabalho de promoção de estilos de vida saudáveis para prevenir comportamentos desviantes, centrado no papel determinante da escola. Será especialmente valorizada a função dos educadores, dos formandos e de especialistas em prevenção primária e serão reforçados os meios necessários à prevenção da iniciação nas drogas e outras dependências, incluindo o alcoolismo e o tabagismo e criados mais meios de acompanhamento psicológico para auxiliar aqueles que já consomem.

Em matéria de tratamento, o Estado deve assumir um papel de complementaridade, de coordenação e de regulação relativamente às respostas disponíveis no sector privado e social.

Em matéria de reinserção, será apresentado um novo programa redefinindo os objectivos e prioridades para esta área, a partir da avaliação dos programas de Reinserção Social.

2.

SEGURANÇA SOCIAL

Neste quadro de valores e referências, proceder-se-á à concretização de uma reforma global, faseada, coerente e articulada da segurança social que permita um justo equilíbrio entre direitos e deveres sociais, entre a resposta pública e a contratual, entre a equidade social, a eficiência económica e a liberdade de escolha, criando condições de sustentabilidade geracional da Segurança Social pública, a que corresponderá a aprovação de uma nova da Lei de Bases da Segurança Social, por forma dar expressão a estes princípios e o desenvolvimento articulado dos diferentes pilares (público, empresarial, familiar e individual) da segurança social, o que implica assumir a complementaridade de uma maneira clara e definitiva.

Importa promover uma nova dimensão ética das relações e transferências sociais fundada nos princípios da solidariedade, da subsidiariedade, da proporcionalidade dos meios e da resposta aos novos desafios sociais. A solidariedade enquanto valor e fundamento inalienável da dignidade humana, a subsidiariedade, enquanto afirmação de uma cultura social de de partilha solidária de riscos e não apenas de uma atitude passiva de dependência; a proporcionalidade dos meios, tendo em atenção a sintonia entre macro-políticas e as micro-iniciativas e o justo equilíbrio entre a riqueza e a sua distribuição.

O Governo tem consciência de que eficácia social da política a prosseguir é substancialmente potenciada com uma eficiente articulação com as demais políticas sectoriais, procurando dar resposta a situações de pobreza e exclusão, nomeadamente às novas formas de exclusão que resultam das mutações sociais. Neste sentido, está prevista a reformulação e aprovação de uma nova medida social destinada aos mais carenciados (Rendimento Social de Inserção), privilegiando o princípio de diferenciação positiva e o reforço dos mecanismos de fiscalização. No domínio da protecção aos idosos, afigura-se como primordial o desenvolvimento do esforço de melhoria do valor das pensões mínimas e o envolvimento das IPSS numa lógica de intensificação das medidas de combate ao isolamento, à solidão e à pobreza. Simultaneamente, aprofunda-se o conjunto de intervenções transversais e abrangentes que o Governo tem adoptado, dando-se destaque às medidas em prol da integração efectiva das pessoas com deficiência e reconhecendo-se o papel fundamental da família, enquanto núcleo basilar da sociedade, procedendo-se ao reajustamento das políticas de apoio à vida e à maternidade por forma a privilegiar as mães e as famílias numerosas.

Reforma da Segurança Social

Aprovada a nova Lei de Bases da Segurança Social, o Governo irá iniciar a consolidação da mesma, o que passa nomeadamente pela:

Esta reforma da Segurança Social será devidamente articulada com outras importantes reformas, e em particular da fiscal, laboral e da saúde e irá traduzir-se no desenvolvimento articulado dos diferentes pilares (público, empresarial, familiar e individual) da segurança social, o que implica assumir a complementaridade de uma maneira clara e definitiva, passando:

Reorientação das Prioridades nas Políticas de Solidariedade Social

Envolve, nomeadamente as seguintes orientações:

Em termos institucionais e de financiamento proceder-se-á a transformação gradual do financiamento directo às Instituições Particulares de Solidariedade Social financiamento directo às famílias beneficiárias, segundo critérios de equidade social.

3.

FAMÍLIA

Ao Estado cumpre respeitar a autonomia, a identidade e a unidade de organização da vida familiar. À visão individualista, estritamente centrada nos direitos do indivíduo desinserido da comunidade familiar, impõe-se uma visão integradora das suas dimensões e de liberdade e solidariedade que constituem o duplo aspecto da personalidade humana. O Estado deve, inequivocamente, reconhecer a família como o elemento fundamental da sociedade e como o espaço natural de realização da pessoa e de solidariedade entre gerações.

Assim, no respeito pelo princípio da subsidiariedade, a política familiar do Governo criará condições que:

Uma especial atenção será ainda dada a medidas concretas em favor da natalidade e da defesa intransigente do direito à vida, nomeadamente as que se dirigem aos seguintes objectivos:

4.

IGUALDADE

O Conselho Europeu de Lisboa, realizado em Março de 2000, reconheceu a importância do aprofundamento de todos os aspectos da igualdade de oportunidades, incluindo a redução da segregação no mercado de trabalho e a promoção da conciliação da vida profissional e familiar. Considerou, ainda, que um dos objectivos gerais da políticas de emprego deverá ser o aumento da taxa de emprego das mulheres para 60% em 2010.

O Governo considera que a eliminação da discriminação em função do sexo e a construção da igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens reveste uma importância fundamental para a promoção e a protecção dos direitos humanos, assim como para a qualidade e aprofundamento da democracia.

Assim, reitera-se a estratégia de abordagem transversal das questões de igualdade de oportunidades entre mulheres e homens a todos os níveis e em todas as áreas.

Nestes termos, são assumidas as seguintes áreas de intervenções prioritárias:

5.

MINORIAS ÉTNICAS E IMIGRAÇÃO

Tem-se nos últimos anos assistido à entrada em Portugal de um numero considerável de estrangeiros das mais diversas proveniências. A recepção de imigrantes - para além dos benefícios que pode ter do ponto de vista da supressão de algumas carências ao nível do tecido produtivo nacional - cria ao Estado novas responsabilidades.

Assim, a política de imigração deve ser vista como estruturante e assumir um carácter transversal, de molde a prevenir potenciais conflitos que possam advir da integração dos estrangeiros residentes em território nacional. As acções a desenvolver devem articular os interesses das várias minorias étnicas, sociais e comunidades de imigrantes, com o todo nacional. O caminho deve ser a inclusão e não a exclusão ou marginalização.

Neste quadro de referências, será levado a cabo:

6.

JUVENTUDE

Apostar nos jovens, como protagonistas da modernização, da mudança de mentalidades e da recuperação do atraso estrutural do País, será sempre o vector chave da nova política de juventude. Nesse sentido, são orientações de carácter geral:

No contexto destas orientações levar-se-ão a cabo actuações específicas para a juventude, no âmbito de outras áreas de natureza económica, social e cultural, das quais se destacam:

7.

DESPORTO

Constituem objectivos estratégicos no âmbito do Desporto o incremento de hábitos de participação continuada da população na prática desportiva, num ambiente seguro e saudável, que contribua para o bem estar social e a melhoria da qualidade de vida, bem como o progresso técnico e a melhoria de qualidade competitiva no plano internacional. Tendo em vista o incentivo à prática desportiva, serão adoptadas as seguintes medidas:

No âmbito do reforço da dimensão internacional do desporto, promover-se-á:

No que respeita à valorização da qualidade de intervenção dos recursos humanos proceder-se-á:

Em matéria de instalações e equipamentos desportivos, será desenvolvida uma política integrada de infra-estruturas desportivas, em cooperação com as autarquias locais, as escolas e os clubes, de acordo com as seguintes linhas de actuação:

No domínio da ética desportiva e da protecção da saúde e segurança dos desportistas, serão adoptadas as seguintes medidas:

Quanto ao EURO 2004, tratando-se de um evento de assinalável importância para o País, susceptível de contribuir para um reforço da imagem externa de Portugal, será assegurado o cumprimento dos compromissos anteriormente assumidos pelo Estado Português.

Deverá, contudo, a concretização deste apoio ser orientada numa lógica de rigor na gestão de todos os aspectos ligados aos recursos públicos envolvidos na construção das novas infra-estruturas necessárias à realização deste evento.

8.

CIDADES, ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E AMBIENTE

A qualidade de vida dos cidadãos, pela sua progressiva deterioração nas sociedades modernas com uma evolução as mais das vezes na razão contrária dos índices de crescimento económico, deverá reclamar do Estado uma atenção constante e a consequente implantação de políticas que visem harmonizar o desenvolvimento com o bem-estar das pessoas.

Desde logo a vivência em meio urbano, com as agressões a que permanentemente são sujeitos os seus habitantes, carece de um olhar centrado no desenvolvimento harmonioso do espaço, assente em orientações de planeamento com regulamentação exigente e disciplinadora, que para uma eficaz aplicação deve beneficiar de uma cooperação cúmplice entre as administrações central e local.

A lógica de ordenamento e preservação dos equilíbrios ambientais deve, porém, ganhar prolongamento para lá do espaço urbano e estender-se a todo o território, sendo encaradas as políticas a prosseguir e os instrumentos a adoptar numa preocupação concertada em assegurar sustentabilidade ao desenvolvimento.

Assumindo um carácter transversal todas as manifestações de humanização do território, o ambiente será entendido numa perspectiva mais globalizante e favorecedora de soluções, ainda que para tal seja reclamada uma constante avaliação e monitorização dos impactes gerados pelas acções sectoriais a executar, sendo anuladas todas aquelas que conflituem com o bem-estar das gerações futuras.

Políticas Integradas de Ambiente, de Ordenamento do Território e Conservação da Natureza

As políticas do Ambiente e do Ordenamento do Território e Conservação da Natureza a prosseguir fundamentam-se em princípios de sustentabilidade, transversalidade, integração, equidade e participação.

Estes princípios serão concretizados em linhas da política de ordenamento para as diversas componentes do território, incluindo:

As políticas para o ambiente, o ordenamento do território e a conservação da natureza, enquadram-se ainda na Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável, em especial nos três primeiros dos quatro grandes domínios estratégicos:

A sua concretização far-se-á através de um conjunto articulado de instrumentos de planeamento, dos quais se destacam:

A melhoria dos sistemas urbanos é essencial para um correcto ordenamento do território, e nesta perspectiva definem-se como principais orientações de política, as seguintes:

Política de Recursos Hídricos

A água é encarada pelo XV Governo Constitucional como um recurso essencial, cuja gestão, no plano da preservação das origens das utilizações e da qualidade, em especial, da que se destina para o consumo humano, constituem prioridades de actuação.

A administração sustentável deste recurso depende de uma profunda reforma institucional e normativa do sector, através da tomada das seguintes medidas:

Política para as Cidades

A dinâmica da evolução das sociedades gerou um fenómeno de forte e rápida concentração de pessoas e actividades nos centros urbanos e uma profunda transformação do mundo rural.

O diagnóstico dos graves problemas trazidos pela construção urbana está feito e é consensual: urbanização indisciplinada, irracional ocupação do solo, tendência para a especulação imobiliária, deficiências e insuficiências nas infra-estruturas urbanas que deveriam suportar o crescimento das cidades, forte pressão para recuo dos limites de protecção das redes ecológicas fundamentais sem resposta cabal quanto à definição dos usos com elas compatíveis. Estes problemas irão merecer respostas centradas em dois objectivos fundamentais: a melhoria da qualidade de vida das populações nas áreas urbanas e a aposta no desenvolvimento equilibrado, harmónico e sustentado das Cidades.

Estas linhas de força assentarão na cooperação activa entre a administração central e o poder local, no quadro de uma nova política que contribua para o desenvolvimento harmonioso dos centros urbanos, para a eliminação das bolsas de pobreza, do suburbanismo, da insegurança e da exclusão social.

Tal política será prosseguida no quadro definido, designadamente, pelas seguintes grandes orientações:

A prossecução destas orientações far-se-á num contexto de reforço dos mecanismos de participação dos cidadãos na definição das opções estratégicas de política urbana.

9.

HABITAÇÃO

Portugal é um País de recursos limitados, facto que não tem impedido o Estado de canalizar anualmente para o sector da Habitação verbas muito avultadas, e não raro sem a garantia de favorecer uma oferta estabilizada de habitação a preços acessíveis.

Actualmente, cerca de 80% dessas verbas destinam-se a apoios à aquisição, evidenciando uma postura desequilibrada, aumentando a pressão de cariz especulativa para o consumo contínuo de novos solos em detrimento da preservação do património habitacional existente.

Assiste-se a um crescimento da produção destinada a venda para habitação própria descurando-se o mercado de arrendamento e o de reabilitação de edifícios. Tendo em consideração este panorama são orientações prioritárias as seguintes:

10.

DEFESA DO CONSUMIDOR

A efectivação dos direitos dos consumidores e a garantia e fiscalização do cumprimento dos deveres legalmente estabelecidos em matéria de defesa do consumidor constituem os vértices da política que se irá incrementar neste sector.

A informação e a formação para o consumo surgem, neste contexto, como meios essenciais para a criação de uma desejada consciência crítica por parte dos cidadãos, que os tornem, por um lado, menos vulneráveis e, por outro, mais exigentes.

Para esse efeito, será conduzida uma política de informação e formação abrangente, congregando as escolas e as autarquias locais e incidindo especialmente nos meios com maior escassez de acesso à informação.

O objectivo é o de conferir plena efectividade à legislação respeitante à defesa do consumidor, tornando-a parte efectiva da vida dos cidadãos.

II. SITUAÇÃO ECONÓMICA EM PORTUGAL EM 2002-2003

II.1. ENQUADRAMENTO ECONÓMICO EXTERNO

ENQUADRAMENTO INTERNACIONAL

Na primeira metade de 2002, a economia mundial revelou sinais de recuperação após ter esgotado no início deste ano, o período de desaceleração desencadeado em meados de 2000. O padrão e ritmos de recuperação não se apresentam, contudo, claros e fortes, havendo um conjunto de incertezas sobre a evolução da actividade económica.

A generalidade das economias da OCDE apresentou melhorias. É suposto que os ritmos de crescimento venham a acelerar ao longo do ano e alcancem em 2003 patamares de crescimento mais próximos dos registados na segunda metade dos anos noventa. Neste quadro de evolução, o desemprego tenderá a voltar a reduzir-se. As condições favoráveis das políticas monetárias e orçamentais devem manter-se no curto prazo até que os sinais de recuperação sejam mais claros ou se verifiquem tensões inflacionistas. Fora da zona da OCDE, a generalidade das economias emergentes, com a excepção da América Latina, e das economias em transição revelavam também uma recuperação do ritmo de actividade económica, reflectindo a retoma das economias mais desenvolvidas. A América Latina confronta-se com a crise da economia argentina e com as incertezas relativas ao Brasil, existindo receios quanto a um possível contágio às demais economias da região.

Em termos de perspectivas, a evolução da economia norte-americana continua a condicionar a amplitude da recuperação da economia mundial. Também aqui há riscos a ter em conta, nomeadamente os efeitos sobre a confiança dos agentes económicos da revelação de prática contabilísticas inapropriadas por parte de algumas empresas cotadas ou o terrorismo, na frente interna e a campanha anti-terrorista (contemplando o eventual ataque ao Iraque), na frente externa. Embora os ritmos e os quadros de incertezas não se apresentem homogéneos, constata-se uma certa sincronização da fase de recuperação. Apesar disso, no domínio das economias desenvolvidas, a recuperação norte-americana apresenta ritmos superiores aos da média europeia, continuando a economia japonesa em si mesma a constituir um grande factor de risco.

Neste contexto, e considerando uma trajectória de manutenção da recuperação da economia norte-americana, é possível que a economia internacional cresça, em 2002, a uma taxa média anual na ordem de 2 3/4% - taxa superior à da zona da OCDE devido, nomeadamente, à dinâmica da zona asiática (com excepção do Japão) - e venha a acelerar em 2003, para uma taxa média anual da ordem de 3 1/2% a 4%.

Evolução recente

O panorama e perspectivas que a economia internacional apresentam reflectem em grande medida a evolução da economia norte-americana e dos seus efeitos nas demais economias, dado o papel motor que aquela economia desempenha no quadro económico internacional.

Na segunda metade dos anos noventa a economia norte-americana cresceu a ritmos fortes (com taxas anuais de crescimento rondando 4%) e disseminou condições económicas e de expectativas favoráveis para toda a economia internacional.

No entanto, em 2000, a economia dos EUA entrou em desaceleração, a qual começou a ser visível na segunda metade de 2000 e levou no início de 2001 a que a autoridade monetária norte-americana tivesse encetado um processo de redução das taxas de juro, que levou a principal taxa de referência de 6,0% para 1,75% no final do ano passado, o valor mais baixo em mais de quarenta anos.

Deve-se salientar que na sequência dos ataques terroristas de 11 de Setembro e da subsequente campanha anti-terrorista, as autoridades monetárias baixaram as taxas de juro de referência do dólar por quatro vezes até ao final de 2001, num total de 175 pontos base. Ao mesmo tempo a política orçamental também se revelou expansionista. A Administração norte-americana baixou os impostos, medida posta em execução em meados de 2001 e foram realizadas despesas de emergência após os ataques terroristas. Já em 2002, em Março, um pacote de estímulo orçamental, decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro, foi aprovado. O orçamento federal em curso e, possivelmente, os dos próximos anos, deverão apresentar défices, ao contrário do que sucedeu nos últimos anos.

A economia dos EUA, ajudada pelo consumo, pelas despesas em habitação e pela reposição dos stocks deverá ter iniciado a recuperação no último trimestre de 2001, após três trimestres de crescimentos negativos. No primeiro trimestre de 2002, a economia norte-americana cresceu, em termos anualizados, a um ritmo de 5% (0,3% no conjunto do ano de 2001), embora uma parte significativa deste crescimento decorresse da componente variação de stocks. No segundo trimestre de 2002, a segunda estimativa aponta para uma taxa de crescimento anualizada de 1,1%.

A evolução no primeiro semestre e as perspectivas para o conjunto do ano têm subjacente um comportamento favorável do consumo e das despesas em habitação. As segundas beneficiaram das baixas taxas de juro hipotecário e do facto de este tipo de aplicações funcionar como alternativa para os capitais em períodos de turbulência noutros mercados.

No entanto, a recuperação revelava que o investimento empresarial, em particular em equipamento e software, não tinha arrancado (embora a estimativa do PIB do segundo trimestre já revele uma ligeira evolução positiva desta componente). Entretanto surgiram outros factores que poderão vir a interferir com a confiança dos agentes económicos e adiar uma recuperação mais vigorosa da economia americana. De facto, a revelação das já referidas práticas contabilísticas inapropriadas por parte de algumas empresas cotadas afectou os mercados accionistas domésticos, contagiando imediatamente os principais mercados financeiros internacionais. As autoridades governamentais encetaram processos de investigação e de agravamento das penas a práticas desta natureza, medidas que poderão contribuir para conter a deterioração da confiança dos agentes económicos.

A própria autoridade monetária, em intervenção pública em meados de Julho, tentou injectar confiança no sistema invocando o andamento favorável dos indicadores da economia real e avançando previsões também relativamente favoráveis para o crescimento dos EUA em 2002, caso não surgissem eventos de relevância considerável (como os relacionados com terrorismo); admitia, no entanto, que a evolução dos mercados pudesse afectar, de algum modo, o ritmo de crescimento (via consumo), pressupondo, todavia, pelo menos implicitamente, que tal efeito seria limitado (quer em termos de significado, quer em termos temporais).

Não é possível avaliar por enquanto a intensidade do impacto desta crise no nível de confiança do consumidor e o seu ritmo de despesa, factores decisivos do crescimento norte-americano e internacional. Em Setembro, um dos principais indicadores de confiança do consumidor registava o seu quarto decréscimo mensal consecutivo ; no entanto, em Agosto, a taxa de desemprego situava-se nos 5,7% da população activa, nível inferior ao registado em Julho (5,9%, dos níveis mais elevados desde 1994). Caso o nível de confiança das famílias venha a ser afectado significativa e sustentadamente, a economia norte-americana e, por reflexo, as economias europeia e global, poderão correr o risco de reentrarem num período recessivo ou, pelo menos, de crescimento reduzido.

Neste quadro de elevadas incertezas surgiu como natural a desconfiança nos activos financeiros e na sua capacidade de continuar a atrair o fluxo de capitais que vêm financiando o défice externo americano. Como reflexo dessa desconfiança, o dólar encetou um processo de depreciação face às outras principais moedas internacionais. O euro ultrapassou, por alguns dias, em Julho, a paridade face ao dólar e o yen, apesar de todas as dificuldades da economia japonesa, também se apreciou.

A economia japonesa tem vindo a registar alguma melhoria devido à reacção do seu sector exportador à melhoria do enquadramento internacional. Registou um crescimento trimestral de 0,6% no segundo trimestre de 2002 (embora em termos homólogos apresente uma quebra de 0,7%) depois de ter registado três trimestres consecutivos de evolução negativa em 2001. A recuperação da economia internacional em 2002 contribuirá para que o sector exportador japonês introduza algum dinamismo no clima deflacionista japonês mas a recente apreciação do yen - reflexo directo da depreciação do dólar - poderá mitigar esse impacto. No entanto, a situação económica no Japão continua a ser incerta. A margem de manobra da política monetária é quase nula, já que as taxas de juro nominais se aproximam de 0% e a da política orçamental também o é, dado os elevadíssimos níveis da dívida e do défice públicos.

Ao mesmo tempo, as autoridades não conseguiram ainda implementar eficazes reformas estruturais de saneamento financeiro. A recente melhoria da economia japonesa não se afigura suficiente para afastar de forma definitiva o cenário de uma crise financeira a prazo, dada a insustentabilidade da trajectória das contas públicas japonesas e a situação difícil do sistema bancário.

No quadro das economias emergentes, as economias asiáticas mais abertas estarão a beneficiar directamente com a recuperação do clima económico internacional. Em contrapartida, as de maior dimensão e relativamente menos desenvolvidas e mais fechadas, como a chinesa, são menos afectadas com as flutuações globais; no entanto, ainda que indirectamente, os sectores expostos destas economias acabam por vir a beneficiar dessa melhoria do clima económico internacional. A evidência recente tem também revelado menor instabilidade financeiro-cambial (compare-se com as turbulências neste domínio em 1997/98) e a própria depreciação do dólar deverá estar a revelar-se vantajosa para estas economias.

Contudo, na América Latina, a situação financeiro-cambial das economias é frágil, atingindo, no caso argentino, um nível crítico. Esta economia tinha mantido a paridade com o dólar para evitar situações de hiper-inflação mas a depreciação do real brasileiro (no início de 1999) fez com que os produtos argentinos perdessem competitividade. Este factor, conjugado, nomeadamente na segunda metade de 2001, com o contexto de desaceleração económica internacional, conduziu a que as autoridades argentinas tenham sido incapazes de honrar os compromissos financeiros associados a uma dívida pública de cerca de 130 milhares de milhões de dólares. No início de 2002, ocorreu a desvalorização formal do peso argentino e uma grave crise política, financeira e social com reflexos que, na altura, foram controlados ao nível do sistema financeiro internacional. No entanto, ao longo do primeiro semestre a crise persistiu, tentando as autoridades evitar o colapso do sistema bancário.

Entretanto, surgiram também problemas na economia brasileira. Embora do ponto de vista das contas externas, o défice corrente apresente uma trajectória de melhoria, as incertezas quanto aos resultados das eleições presidenciais em Outubro estão a dar origem a uma fuga de capitais e a uma contínua depreciação do real (apesar das intervenções do respectivo Banco Central).

Perspectivas

Neste quadro genérico de evolução da economia internacional denotando recuperação durante o primeiro semestre, as perspectivas apresentam-se com elevados factores de risco e incerteza, sendo que a evolução da economia norte-americana continua a desempenhar um papel decisivo.

Na hipótese mais favorável, a economia americana continuará a responder positiva e claramente aos estímulos das políticas monetária e orçamental expansionistas (ultrapassando as incertezas duma campanha militar contra o Iraque que se desenrolaria rapidamente e com sucesso). Com efeito, não há indícios de que as autoridades monetárias aumentem as taxas de juro enquanto não houver sinais de uma recuperação clara com potenciais riscos inflacionistas. Por outro lado, com a consolidação da recuperação, quer o clima de confiança, quer os resultados efectivos das empresas (ajudados com os ganhos assinaláveis de produtividade que vêm sendo registados) permitirão uma retoma do investimento. A economia internacional deverá reflectir rapidamente este novo ciclo de expansão norte-americano.

Noutra hipótese, favorável mas não tanto como a anterior, a economia norte-americana continuará a responder positivamente aos estímulos das políticas monetária e orçamental. Contudo, quer as incertezas criadas quanto às práticas contabilísticas inapropiadas quer as que possam decorrer de novos ataques terroristas e de eventuais campanhas militares (em particular, no caso do Iraque), interfeririam, em alguma medida, com a confiança dos agentes económicos norte-americanos e com o seu nível de despesa. Nesta hipótese, a economia manteria um ritmo de crescimento positivo e relativamente favorável mas não tão forte como no cenário anterior (correspondendo, de certo modo, à taxa de crescimento de 2.6%, para 2003, avançado pelo FMI em Setembro).

Atente-se que, apesar da recessão que ocorreu em 2001 e o esvaziamento da bolha tecnológica relacionada, em especial com as TIC, a revolução digital não está em regressão. Os acontecimentos de 11 de Setembro conferiram especial ênfase à vertente "segurança" dessa revolução, ao mesmo tempo que os orçamentos de defesa norte-americanos terão permitido que o sector militar recupere um papel mais central no processo de inovação tecnológica, como frequentemente aconteceu ao longo da História.

Numa hipótese menos favorável, a confiança dos agentes económicos norte-americanos cederá, temporariamente, às incertezas e riscos, quer da ordem interna norte-americana quer da ordem externa, e o correspondente crescimento da despesa atenuar-se-á de modo significativo, arrastando consigo uma nova desaceleração da actividade económica.

No Japão, a trajectória das contas públicas e a situação de algumas empresas importantes, incluindo financeiras, constitui um outro factor de risco para a economia internacional.

Um outro factor a ter em conta é a evolução económica na América Latina, com a possibilidade de a crise financeira alastrar a outros países, nomeadamente ao Brasil.

Por último, a possibilidade de uma eventual campanha militar americana com incidência no médio oriente, não permite excluir perturbações significativas nos preços do petróleo.

INDICADORES DE EVOLUÇÃO DA CONJUNTURA INTERNACIONAL

(ver gráficos no documento original)

ENQUADRAMENTO EUROPEU

A economia comunitária apresenta na primeira metade de 2002 um padrão de recuperação relativamente semelhante, ainda que desfasado, do padrão da economia norte-americana. A recuperação europeia tem sido determinada pela recuperação da economia dos EUA e da restante economia internacional, o que é evidenciado pelo comportamento do sector externo europeu, o qual permitiu uma evolução positiva no primeiro trimestre de 2001 e que se terá prolongado no segundo trimestre.

Em termos de perspectivas, a evolução da economia europeia está, naturalmente, condicionada pela evolução das economias norte-americana e internacional. Admitindo que a economia norte-americana mantenha na segunda metade do ano os sinais de recuperação e que ganhe dinamismo em 2003, a economia europeia poderá vir a apresentar um ritmo de crescimento médio anual de cerca de 1% em 2002 e aproximar-se do ritmo dos 2,3% em 2003, conforme o FMI perspectivava em Setembro.

Evolução recente

As economias europeias encontram-se, de um modo geral, em recuperação. Contudo, o ritmo desta recuperação não se revela intenso e é possível encontrar algumas economias que se encontram ainda em abrandamento. Em termos médios anuais, o exercício de 2002 para o conjunto da economia da UE deverá vir a revelar uma taxa média anual de crescimento inferior à do ano anterior. A desaceleração da actividade económica comunitária em 2001 foi superior à inicialmente prevista pelas respectivas autoridades económicas, revelando uma maior vulnerabilidade em relação à desaceleração da economia norte-americana e ao clima de instabilidade associado à crispação político-militar internacional.

Contudo, a intensidade da recuperação não apresenta, pelo menos por enquanto, sinais claros e fortes, evidenciando por um lado a natureza da recuperação europeia, determinada pela procura externa e, por outro, com esta correlacionada, a própria dinâmica da economia dos EUA.

As autoridades monetárias europeias, procederam a quatro cortes, que resultaram numa redução de 150 pontos base e que situaram a principal taxa de referência em 3,25% em Novembro passado.

Do ponto de vista orçamental, o padrão genérico de actuação correspondeu a uma atitude prudente, tendo funcionado apenas os estabilizadores automáticos o que, num contexto da desaceleração económica, determinou um agravamento das contas públicas cujo saldo, no caso de alguns países, como a Alemanha e Portugal, se aproximou (ou ultrapassou, no caso português) do referencial de 3% em relação ao PIB. Estes dois casos criaram condições, no entendimento da Comissão Europeia, para o desencadeamento do processo de alerta rápido em Fevereiro último, embora, a nível ministerial, o processo não tenha avançado.

De certo modo, a evolução económica europeia no final de 2001 e princípios de 2002 bem como as perspectivas de curto prazo reflectiram os resultados do padrão de política económica adoptado: a Europa contraíu-se no último trimestre de 2001 quando a economia norte-americana retomava a recuperação; por outro lado, a recuperação europeia, em 2002, é determinada pela retoma norte-americana.

No primeiro trimestre de 2002 a economia da área do euro e da UE registaram crescimentos (ver nota 1), respectivamente, de 0,3% e 0,4% (em termos de comparação, os principais parceiros comerciais cresceram 1,2% no caso dos EUA e 0% no caso do Japão). O crescimento do PIB na área do euro foi explicado por uma estagnação do consumo privado e pela quebra do investimento pelo quinto trimestre consecutivo, compensados pela evolução positiva das exportações.

(nota 1) Taxas de variação face ao trimestre anterior.

No segundo trimestre o crescimento da actividade económica manteve-se em 0,3% e para o terceiro trimestre os serviços da Comissão previam uma aceleração, avançando com um intervalo de 0,3% a 0,6%. Os indicadores infra-anuais mais recentes, respeitantes a meados do ano, apontam para uma quebra no clima de confiança económico, em particular nas principais economias continentais, o que poderá vir a tornar relativamente optimistas aquelas expectativas.

A taxa de desemprego da área do euro situava-se em 8,3% da população activa em Julho, inalterada relativamente a Junho e claramente acima do nível registado um ano antes (8%).

A inflação, aferida pelo IHPC, abrandou ao longo do primeiro semestre, trajectória que se inverteu tenuamente em Julho. A taxa de variação homóloga situava-se em 2,1% em Agosto, face a 2,4% um ano antes. No futuro próximo, a inflação beneficiará da apreciação que o euro tem vindo a experimentar recentemente.

Após alguma depreciação no início do ano, a taxa de câmbio do euro (ITCE) começou a recuperar fortemente a partir de Março, atingindo em Julho o valor médio mensal mais elevado observado desde Novembro de 1999. Em Agosto de 2002, o euro apreciava-se 4% face a Janeiro. Esta evolução traduz uma apreciação significativa face ao dólar (10,7%), tendo mesmo o euro ultrapassado a paridade face à moeda norte-americana durante alguns dias em Julho (o que já não se observava desde finais de Fevereiro de 2000) e uma ligeira depreciação face ao iene. Apesar da taxa de crescimento da economia norte-americana prevista para o conjunto do ano se situar num nível claramente acima da antecipada para a área do euro, a pressão de depreciação sobre o dólar tem sido causada por diversos factores, entre os quais se destacam a fragilidade dos mercados de títulos norte-americanos associada a preocupações com as práticas contabilísticas e a rendibilidade empresarial nos EUA, a percepção de que a economia norte-americana poderá estar a crescer abaixo das expectativas dos mercados financeiros, o aumento do défice da balança corrente e a subsistência de um conjunto de riscos associados a eventuais acções militares dos EUA e ao terrorismo.

As taxas de juro directoras do BCE mantiveram-se inalteradas ao longo dos primeiros oito meses, após quatro cortes efectuados em 2001 (num total de 1,5 p.p.). As taxas de juro do mercado monetário do euro apresentaram no primeiro semestre uma ligeira subida face a Dezembro, principalmente nos prazos mais longos, em grande parte motivada pela expectativa de antecipação de uma subida das taxas de intervenção do BCE, movimento que começou a ser corrigido pelo mercado em Junho. Em Agosto, as taxas de juro situavam-se muito próximo dos níveis observados no final do ano transacto. No que respeita às taxas de juro bancárias, os empréstimos a sociedades não financeiras (91 a 180 dias) atingiram 5,2% em Agosto (5,2% em Dezembro de 2001) e as taxas de empréstimos a particulares para prazos superiores a 5 anos subiram marginalmente para 5,1% (face a 5% em Dezembro de 2001).

As taxas de juro de longo prazo (10 anos) na área do euro, em Agosto, encontravam-se em níveis ligeiramente inferiores aos observados em final de 2001, atingindo 4,58% (4,79% em Dezembro de 2001), registando um movimento descendente após alguma tendência altista observada principalmente até ao primeiro trimestre.

Perspectivas

As perspectivas europeias estão fortemente condicionadas, conforme foi já referido, pela evolução, sobretudo, da economia norte-americana e também da economia internacional.

Admitindo que a recuperação norte-americana venha a consolidar-se e ganhe dinamismo em 2003, a economia europeia poderá vir a apresentar um ritmo de crescimento médio anual de cerca de 1% em 2002 e aproximar-se do ritmo de 2,3% em 2003, conforme a perspectiva do FMI de Setembro (ou ser mesmo superior, correspondendo ao cenário de um crescimento norte-americano mais favorável, reflexo duma campanha aliada contra o Iraque, rápida e com sucesso). Caso a recuperação norte-americana venha a abrandar com algum significado ou a registar uma inversão na trajectória - hipótese a não excluir face aos indicadores mais recentes - tornar-se-á difícil à economia europeia alcançar as taxas de crescimento referidas.

Na área do euro a inflação média anual tem vindo a abrandar desde Abril, estabilizando em 2,2% em Agosto, projectando-se para 2002 um crescimento dos preços no consumidor mais moderado do que no ano anterior. De acordo com as previsões do FMI de Setembro de 2002, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) poderá situar-se em 2,1% (2,5% em 2001).

Num quadro em que a retoma económica é particularmente incerta, é difícil perspectivar a melhoria do mercado de trabalho, ou seja, um desagravamento do desemprego. Este, entre outros factores, constitui um elemento adicional para não se prever um nível de inflação sensivelmente superior ao da actual conjuntura, salvo naturalmente no cenário de uma crise energética sustentada.

EVOLUÇÃO DA ECONOMIA MUNDIAL

(ver quadro no documento original)

II.2. ECONOMIA PORTUGUESA

Evolução Recente

Em 2002, o ritmo de evolução da actividade económica deverá registar um novo abrandamento, determinado essencialmente pela continuação do processo de ajustamento da procura interna, mas também por um crescimento moderado das exportações de bens e serviços. A correcção significativa do crescimento da procura interna, cuja amplitude já havia sido considerável em 2001, tem tradução nas suas várias componentes, embora sejam as despesas em Formação Bruta de Capital Fixo a parcela mais severamente afectada. Neste contexto, em que o desempenho do sector externo assume particular relevância enquanto factor de crescimento da economia, a fragilidade da recuperação da procura internacional poderá limitar o contributo positivo das exportações para o crescimento do PIB.

O abrandamento projectado para a procura interna caracteriza-se por uma fraca evolução das despesas de consumo das famílias, que deverá traduzir-se numa desaceleração face ao ano anterior, e por um comportamento negativo do investimento. Por seu turno, as medidas adoptadas no sentido do controlo da despesa pública permitirão conter o crescimento do consumo público num ritmo significativamente mais moderado do que o atingido nos últimos anos.

O PIB deverá evoluir a uma taxa de crescimento modesta, estimada em 3/4% (ver nota 2), inferior à verificada em 2001 (1,7%). A amplitude desta desaceleração, que comporta ainda um certo grau de incerteza, depende da trajectória das economias dos nossos principais parceiros na segunda metade do ano, bem como da evolução do clima de confiança dos consumidores e investidores.

(nota 2) A análise apresentada para 2002 e 2003 reporta-se genericamente ao cenário central implícito nos intervalos de previsão.

No primeiro trimestre o PIB cresceu em termos reais 1,4%, em relação ao período homólogo, acelerando ligeiramente face ao trimestre precedente (crescimento do PIB de 1%). Esta evolução é explicada por um comportamento mais favorável das exportações, que haviam regredido no quarto trimestre, e pela intensificação do decréscimo das importações. Por seu turno, a procura interna voltou a desacelerar, em resultado da deterioração do comportamento da Formação Bruta de Capital Fixo que se saldou num crescimento muito moderado (1,7%), enquanto as despesas de consumo das famílias recuperaram ligeiramente graças a uma menor redução da componente bens duradouros. Os indicadores de conjuntura disponíveis indiciavam uma desaceleração da actividade económica no segundo trimestre devido a um menor dinamismo do consumo privado e do investimento, embora o contributo do comércio externo para o crescimento real do PIB tenha sido favorável.

As despesas de consumo final das famílias residentes deverão apresentar, em 2002, um novo abrandamento, mas menos intenso do que o verificado no ano anterior. Estima-se que esta componente da procura venha a apresentar um crescimento moderado, da ordem dos 1/2%. Esta evolução comporta uma redução das despesas de consumo de bens duradouros, tal como se verificou no ano anterior, embora de menor magnitude, evidenciando a manutenção de um processo ajustamento desta variável, após o crescimento significativo observado, particularmente, em 1998 e 1999. A referida evolução do consumo em 2002 está associada a um menor crescimento real do rendimento disponível das famílias, reflectindo a situação menos favorável do mercado de trabalho e uma maior moderação no crescimento dos salários, bem como a uma deterioração do clima de confiança dos consumidores. Neste contexto, é plausível que a taxa de poupança das famílias possa apresentar um ligeiro aumento, explicado, essencialmente, por motivos de precaução, comportamento que não é alheio aos níveis de endividamento atingidos.

No primeiro trimestre, o consumo das famílias registou uma recuperação, com uma taxa de variação homóloga de 0,8% (0,1% no trimestre anterior), evolução que ficou a dever-se, fundamentalmente, ao comportamento da componente automóvel, que apresentou um crescimento menos negativo. No segundo trimestre, a generalidade dos indicadores de conjuntura indiciavam algum abrandamento face ao trimestre anterior. O indicador de confiança dos consumidores apresentava também um comportamento mais desfavorável.

Após as elevadas taxas de crescimento registadas em anos anteriores, o investimento estagnou em 2001, estimando-se que venha a reduzir-se em 2002, não só como resultado do ajustamento significativo do investimento dos particulares em habitação, mas também da retracção do investimento empresarial. A correcção das despesas de investimento ocorre na sequência de um período em que se verificou uma forte expansão da capacidade produtiva e que se conjuga com uma conjuntura pouco favorável caracterizada por um fraco dinamismo da procura externa e por um abrandamento da procura interna. O crescimento dos níveis de endividamento das famílias e das empresas no passado recente constituem também um factor que condiciona negativamente as decisões de investimento.

A evolução prevista para a Formação Bruta de Capital Fixo, cuja taxa de variação poderá atingir um decréscimo de 2 1/4%, tem subjacente uma desaceleração da componente Construção, e uma redução das restantes despesas de investimento. Prevê-se que os investimentos de iniciativa pública (ver nota 3) tenham, no seu conjunto, um impacto positivo na evolução da FBCF, ainda que de menor amplitude do que o estimado para 2001.

(nota 3) Consideram-se nos investimentos de iniciativa pública os investimentos realizados com fundos comunitários, as despesas de investimento do PIDDAC realizadas com financiamento nacional e os investimentos realizados pelas empresas concessionárias de auto-estradas.

A Formação Bruta de Capital Fixo registou, no primeiro trimestre, um crescimento muito moderado (1,7%) - tanto mais que compara com um trimestre homólogo marcado por um desempenho particularmente negativo -, denotando um abrandamento face aos dois últimos trimestres do ano anterior. Embora em desaceleração face ao quarto trimestre de 2001, a componente Construção registou um crescimento de 5,3%, atenuando o impacto da evolução negativa das despesas de investimento em Produtos Metálicos e Equipamento (-2,3%) e em Material de Transporte (-4,9%). De acordo com os indicadores de conjuntura, a FBCF terá mantido no segundo trimestre uma tendência de desaceleração.

Em 2002 as exportações de bens e serviços deverão manter um crescimento moderado, podendo, no entanto vir a registar uma aceleração em relação ao exercício precedente, prevendo-se um crescimento na ordem dos 3 1/4%, em termos reais (2,9% em 2001). O comportamento das exportações, apesar de estar condicionado pelo fraco dinamismo projectado para a evolução da procura externa relevante para o sector exportador, traduz a concretização de ganhos de quotas de mercado em 2002. Ao contrário do que se verificou em 2001, do comportamento esperado para as vendas externas de veículos automóveis não resultará um impacto favorável no desempenho global das exportações.

No primeiro trimestre as exportações de bens e serviços registaram um crescimento em volume modesto, de 0,7%, mas em recuperação face ao trimestre anterior (-0,5%). Os indicadores disponíveis para o segundo trimestre apontam no sentido de uma aceleração das receitas externas de bens e serviços.

No que se refere às importações de bens e serviços, a sua evolução não deixará de traduzir o abrandamento estimado para a procura interna, designadamente, nas vertentes investimento empresarial e despesas de consumo das famílias em bens duradouros, componentes com maior conteúdo importado. Aquela variável deverá manter em 2002 a trajectória de desaceleração, estimando-se um crescimento marginal de 3/4%, que compara com uma variação de 0,9% em 2001. No primeiro trimestre as importações de bens e serviços registaram uma diminuição de 0,9%, face ao período homólogo de 2001, intensificando a redução observada no quarto trimestre (-0,1%).

O contributo das transacções de bens e serviços para o crescimento do PIB deverá manter-se positivo em 2002, esperando-se que o mesmo possa atingir uma magnitude semelhante ou mesmo superior à alcançada em 2001. Esta evolução, conjugada com um ganho esperado dos termos de troca - associado, essencialmente, ao impacto positivo da evolução da taxa de câmbio do dólar no crescimento dos preços das importações - deverá permitir a continuação da redução do défice da Balança de Bens e Serviços em percentagem do PIB.

No que se refere ao mercado de trabalho, a evolução menos favorável da actividade económica, traduzida numa desaceleração do crescimento do produto interno para um ritmo muito moderado, bem como o baixo nível em que se encontra a taxa de desemprego, levam a perspectivar para 2002 um crescimento do emprego de 1/2% e um agravamento da taxa de desemprego ao qual está, contudo, subjacente um comportamento pró-cíclico da evolução da população activa.

Os valores disponíveis relativos ao primeiro trimestre evidenciavam um desempenho do mercado de trabalho menos favorável do que o registado no ano anterior. A taxa de actividade apresentava-se idêntica à observada em 2001, da ordem dos 51,8%, mas o ritmo de crescimento do emprego foi mais moderado, de 1,1%, face a 1,5% no trimestre precedente. A taxa de desemprego, situada em 4,4% da população activa continuou a agravar-se, fundamentalmente, no segmento feminino do mercado de trabalho, tradicionalmente mais vulnerável a ciclos menos positivos da actividade económica. A população activa aumentou 1,4%, evolução mais moderada do que nos trimestres anteriores (1,7% no ano de 2001).

A evolução do emprego continuou a reflectir, essencialmente, a moderada evolução da sua componente mais significativa, o emprego por conta de outrem, que aumentou 1% (1,7% em 2001), decorrente do crescimento, de 2,1%, do emprego com contrato não permanente (1% em 2001), já que o emprego com contrato permanente observou um decréscimo de 1,8% (aumento de 1,4% em 2001). O crescimento do emprego por conta própria, de 9%, continuou a ultrapassar claramente a evolução dos trabalhadores por conta de outrem, tal como se tinha verificado em 2001. Em concordância com o observado no ano anterior, apenas o sector terciário apresentou dinamismo na geração de emprego, (3,2%, face a 2,8%, no ano de 2001), com destaque para o sector do comércio (4,6%, face a 4,0%). Os restantes sectores continuaram a apresentar declínios, designadamente o sector secundário (-0,6%) - resultante da evolução do sub-sector da indústria, que registou uma quebra de 3,0% (0,7% no ano 2001) -, não obstante o crescimento de 4,2% do sector da construção (-2,0% no ano de 2001).

No âmbito regional, as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores e a Região do Algarve apresentaram-se como as mais dinâmicas na criação de emprego (4,5%, 4,3% e 3,6%, respectivamente). As restantes regiões apresentaram uma evolução do emprego mais moderada, abaixo da média nacional, no caso da Região de Lisboa e Vale do Tejo, e de declínio na Região Centro (-1,4%).

O número de desempregados continuou a aumentar no trimestre (6,8%), devido, fundamentalmente, às evoluções do desemprego de curta duração e dos desempregados que procuram o primeiro emprego, situação parcialmente associável à evolução do desemprego juvenil, que cresceu significativamente neste período. Por outro lado, o desemprego de longa duração continuou a decrescer. Em linha com a evolução de 2001, o número de desempregados com o ensino superior continuou a observar fortes crescimentos, voltando a registar-se decréscimos no número de desempregados com o ensino secundário.

As taxas de desemprego registaram aumentos generalizados em todas as regiões, com excepção da Região Norte e da R.A. da Madeira em que se mantiveram estáveis face ao ano de 2001.

De acordo com a informação disponibilizada para o segundo trimestre (ver nota 4) o emprego registou um crescimento mais moderado, de 0,9%, situando-se a taxa de desemprego em 4,5% da população activa, que aumentou 1,5%. Em termos sectoriais, destacam-se os crescimentos do emprego nos sectores secundário e terciário (1,1 e 1,9%, respectivamente). O aumento da população desempregada é explicado pelo evolução da componente desempregados que procuram novo emprego.

(nota 4) Os valores disponibilizados pelo INE para o segundo trimestre de 2002 incorporam alterações metodológicas resultantes da utilização das estimativas da população calculadas a partir dos Censos 2001, não sendo directamente comparáveis com a informação anteriormente divulgada.

A inflação, aferida pelo Índice de Preços no Consumidor, tem vindo a apresentar, desde o início do ano, uma trajectória descendente, situando-se a taxa média anual de crescimento em 3,6%, em Agosto. Para o conjunto do ano de 2002 estima-se um crescimento médio anual dos preços da ordem dos 3,5%, mais moderado do que os 4,4% registados no ano transacto.

A desaceleração observada em 2002 tem vindo a ser determinada, predominantemente, pela evolução dos preços dos Bens, uma vez que os preços dos Serviços têm apresentado um comportamento desfavorável. No período de Janeiro a Agosto os preços dos Bens registaram um aumento da ordem dos 2,4%, taxa de variação inferior aos 3,4% registados para o total do IPC, no mesmo período, beneficiando de um crescimento muito moderado dos preços dos bens alimentares não processados. Os preços dos Serviços registaram um acréscimo de 5,6% nos primeiros oito meses do ano, face a 4,8% no período homólogo de 2001. Os impactos directo e indirecto do aumento da taxa normal de IVA de 17% para 19%, ocorrido em Junho, não terão afectado a tendência de abrandamento dos preços.

A apreciação da taxa de câmbio do euro em relação ao dólar contribuirá positivamente para a trajectória da inflação.

O diferencial de crescimento médio dos preços entre Portugal e a área do euro era, em Agosto (ver nota 5), de 1,5 p.p., inferior em 0,1 p.p. ao verificado em igual período do ano anterior e em 0,4 p.p. ao registado no conjunto de 2001 (1,9 p.p.). A redução do diferencial em Agosto face ao valor registado no ano transacto tem implícito uma maior redução da taxa de inflação em Portugal do que na média da área do euro, para o que contribuiu a evolução mais favorável dos preços dos bens alimentares não processados.

(nota 5) Calculado com base na variação média dos últimos doze meses terminados em Agosto.

De acordo com os dados constantes do reporte do Exercício dos Défices Excessivos de Setembro, o défice público situou-se, em 2001, em 4,1% do PIB, tendo ultrapassado o valor de referência fixado no Tratado da União Europeia (3% do PIB).

O valor do défice público resultou, em grande medida, do aumento da despesa pública, tanto ao nível da Administração Central como ao nível da Administração Regional e Local. Adicionalmente, o abrandamento económico também se reflectiu na evolução das receitas públicas, o que também contribuiu para o elevado valor do défice.

O XV Governo Constitucional assumiu a consolidação orçamental como um dos seus objectivos prioritários, assinalando a necessidade de uma política orçamental assente na contenção da despesa. Dada a evolução das finanças públicas e a verificação de uma sobreestimação das receitas e de uma subestimação das despesas no Orçamento do Estado para 2002, foi apresentado em Maio uma Alteração à Lei do Orçamento do Estado para 2002 (Lei 16-A/2002, de 31 de Maio) onde se definiram um conjunto de medidas de emergência com vista à consolidação orçamental.

Entre as medidas da Alteração à Lei do Orçamento do Estado destacam-se: extinção, reestruturação e fusão de alguns serviços e organismos da Administração Central; fixação de um limite de crescimento da despesa de cada Fundo e Serviço Autónomo (FSA) de 2% face à despesa executada em 2001; cativação de . 387,4 milhões das dotações inscritas no capítulo 50 do OE em financiamento nacional; o fim do crédito bonificado à aquisição, construção e realização de obras de conservação de habitação própria permanente; aumento da taxa normal do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) para 19%; e condicionamento do endividamento municipal em 2002. Em Conselho de Ministros foram estabelecidas também medidas que visam o controlo de admissões na Administração Pública, bem como a reavaliação das situações contratuais existentes com o objectivo de conter o crescimento do aparelho administrativo e consequente aumento da despesa pública (Resolução do Conselho de Ministros nº 97/2002, de 18 de Maio).

O Governo reafirma o objectivo de diminuir o défice público para 2,8% do PIB em 2002, corrigindo, assim, já este ano a situação de défice excessivo.

As taxas de juro das Obrigações do Tesouro a 10 anos de Portugal apresentaram uma evolução idêntica à das taxas de juro de longo prazo da área do euro, situando-se em Agosto em 4,85% (5,01% em Dezembro de 2001), tendo-se verificado um alargamento do diferencial da taxa de rendibilidade de longo prazo para Portugal face às correspondentes taxas do euro (0,27 p.p., em Agosto face a 0,22 p.p. em Dezembro de 2001).

Os agregados de crédito registavam em Julho de 2002 um ritmo de crescimento mais lento, tendo o Crédito Interno Total observado um aumento de 6,8% (13,1% em Dezembro de 2001). Para esta desaceleração contribuiu, a par da quebra verificada no Crédito ao Sector Financeiro não Monetário, a evolução menos acentuada do Crédito ao Sector Não Financeiro (excepto Administrações Públicas) de 8,9% (11,9% em Dezembro de 2001), reflectindo o comportamento do crédito às Sociedades Não Financeiras (7,7% em Julho, contra 13,3% em Dezembro de 2001) e, em menor grau, do Crédito a Particulares (10,1% em Julho, contra 10,4% em Dezembro de 2001).

Nos primeiros sete meses do ano, o saldo acumulado da Balança Corrente e de Capital apresentou um desagravamento face ao período homólogo do ano anterior, o qual resulta da redução do défice da Balança Corrente e do aumento do excedente da Balança de Capital. Para a melhoria do défice da Balança Corrente contribuiu a diminuição do défice da Balança de Bens e Serviços. O saldo da balança corrente e de capital deverá apresentar-se no final de 2002 mais favorável do que no ano precedente, traduzindo a gradual redução das necessidades de financiamento externo da economia portuguesa.

INDICADORES DE EVOLUÇÃO DA PROCURA AGREGADA

(ver gráficos no documento original)

PERSPECTIVAS PARA 2003

Perspectiva-se que em 2003 a economia portuguesa venha a registar uma recuperação do seu ritmo de crescimento, em linha com a evolução esperada para a economia internacional e, em particular, para a União Europeia.

A evolução da economia portuguesa em 2003 reflectirá também um conjunto de medidas que têm vindo a ser adoptadas e que prosseguirão naquele exercício, que têm como objectivos centrais (que se complementam) o saneamento das finanças públicas e o aumento da competitividade.

A amplitude do desequilíbrio das contas públicas atingida em 2001 determina que a consolidação orçamental e o saneamento das finanças públicas constituam a primeira prioridade da acção governativa na primeira fase da legislatura. Neste contexto, o contributo da política orçamental para o relançamento da economia surge no curto prazo, naturalmente, mitigado, não sendo viável a adopção de um padrão de política mais consentâneo com a promoção do desenvolvimento da economia, que se poderia reflectir, designadamente, na redução da carga fiscal e no lançamento de novos projectos de investimento. No entanto, o saneamento das contas públicas, sendo em si mesmo uma condição necessária à melhoria da competitividade, é igualmente um factor impulsionador da adopção de medidas estruturais que concorrem, em particular as referentes à Administração, para melhorar a competitividade.

No entanto, as medidas conducentes ao aumento da competitividade situam-se hoje, essencialmente, na esfera das políticas microeconómicas. As medidas já adoptadas (e a adoptar) no âmbito do Programa para a Produtividade e Crescimento da Economia, bem como a introdução de alterações significativas na legislação do trabalho contribuirão para a mudança das condições em que operam as empresas localizadas em Portugal, constituindo assim factores de promoção e de relançamento do investimento empresarial.

Por outro lado, a recuperação sustentada da economia portuguesa só será exequível através de condições de competitividade-preço compatíveis com uma maior dinâmica do sector exportador e com uma maior capacidade concorrencial dos produtos portugueses no mercado interno. Trata-se de um requisito que está associado a uma evolução salarial necessariamente condicionada pela trajectória da produtividade. Um cenário em que este requisito não fosse contemplado, colocaria em risco os fundamentos da recuperação da economia e, como tal, o próprio ritmo de crescimento esperado.

Neste quadro, prevê-se que a dinâmica das exportações possa constituir o motor do crescimento da economia portuguesa em 2003, o qual será ainda sustentado pelo relançamento do investimento. A manutenção de um crescimento moderado do consumo privado bem como a estagnação ou mesmo redução do consumo público reflectir-se-ão numa evolução da procura interna ainda sensivelmente aquém do ritmo de crescimento do PIB.

A evolução do consumo das famílias deverá caracterizar-se pela manutenção de um crescimento moderado, em linha com o andamento observado em 2002. A evolução do consumo deverá estar condicionada pelo abrandamento esperado do emprego e dos salários sendo, todavia, plausível admitir o esgotamento do ajustamento em baixa verificado nos últimos dois anos nas despesas das famílias em aquisições de bens duradouros. O ajustamento do comportamento dos consumidores concretizado nos últimos anos traduziu-se em 2001 e 2002 numa recuperação da taxa de poupança, atenuando-se, assim, a situação de sobreendividamento das famílias.

A evolução do consumo público reflectirá uma política orçamental claramente orientada para o objectivo de redução do défice das contas públicas num horizonte temporal limitado. O nível desta componente da despesa beneficiará de medidas de reforma da despesa pública que permitirão a descida ou manutenção do consumo público em termos reais.

Espera-se uma recuperação do investimento, induzida pela evolução do investimento empresarial privado. A aceleração da procura externa e a adopção de políticas estruturais orientadas para o reforço da produtividade favorecerão a retoma do investimento. Também os investimentos associados ao QCA III deverão contribuir para o crescimento da FBCF. Por seu turno, condicionado pela necessidade de contenção da despesa pública, o Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC), integra prioritariamente os programas e projectos que beneficiam de financiamento comunitário bem como outras acções que pela sua natureza tenham um maior impacto para o crescimento da economia. Esta opção tem subjacente uma maior restrição nas componentes da despesa menos geradoras de riqueza visando, em contrapartida, libertar os meios indispensáveis à execução de projectos com maior repercussão em termos de crescimento.

Perspectiva-se que as exportações de bens e serviços venham a intensificar-se significativamente, em resultado da nítida aceleração esperada da procura nos mercados externos relevantes bem como de melhorias em termos de competitividade. Espera-se a obtenção de ganhos de quotas de mercado, associados, designadamente, a uma evolução favorável em termos de competitividade-preço.

Prevê-se que a retoma da procura, induzida pela aceleração da procura interna, mas sobretudo pela intensificação das exportações dê origem a um ritmo de crescimento das importações mais acentuado do que em 2002.

No que se refere à Balança de Bens e Serviços, poder-se-á verificar um reforço do contributo positivo do comércio externo para o PIB, em resultado do crescimento ainda moderado da procura interna e do desempenho positivo do sector exportador. Por outro lado, os elementos disponíveis relevantes para a determinação dos preços das importações sustentam uma previsão de um ganho de termos de troca, o qual, conjugado com a trajectória esperada para a evolução em volume do comércio externo, conduzirá a uma nova redução do desequilíbrio externo em relação ao PIB.

Considerando a trajectória da actividade económica no passado recente, bem como o comportamento do mercado de trabalho, poderá verificar-se um abrandamento do emprego em 2003, em reacção desfasada ao abrandamento da actividade verificado nos últimos dois anos. A concretizar-se esta evolução, ela traduzir-se-á num ajustamento do crescimento da produtividade após os resultados particularmente desfavoráveis registados em 2001/2002. A taxa de desemprego poderá, consequentemente, registar um movimento ascendente.

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